Mulheres autoras do Sul de Angola: do silêncio à construção de um cânone plural
Palavras-chave:
Literatura feminina, Sul de Angola, Cânone literárioResumo
Este artigo propõe uma reflexão crítica sobre a literatura como espaço de resistência simbólica, reconstrução identitária e afirmação cultural no contexto do Sul de Angola, com foco na produção de mulheres autoras africanas de língua portuguesa, especialmente. Partindo da constatação de que a historiografia literária angolana tem sido construída com base em critérios selectivos e centralizados que privilegiam as regiões urbanas, especialmente Luanda, analisa-se a dupla invisibilidade enfrentada pelas escritoras oriundas do Sul do país, marcada tanto por dinâmicas patriarcais quanto por exclusões geográficas, editoriais e socioculturais. Através de uma metodologia de natureza descritiva, ancorada na análise documental e bibliográfica, o estudo examina as obras de autoras como Ana Paula Tavares, Alda Lara, Deolinda Rodrigues e Lourença Francisco, evidenciando como as suas produções em poemas, prosa, epistolografia e oralidade articulam memória, ancestralidade, território e resistência. São textos que denunciam os efeitos persistentes do colonialismo, da marginalização e da desigualdade estrutural no Sul Global, ao mesmo tempo que reafirmam valores comunitários, saberes femininos e vínculos intergeracionais. Ao propor o Sul de Angola como uma geopoética de resistência, o trabalho contribui para o debate sobre a reconfiguração do cânone literário angolano, reivindicando um espaço mais representativo para as vozes femininas periféricas e para as práticas culturais locais. O estudo reforça, assim, a importância de se valorizar essas narrativas como formas legítimas de acção estética, política e sociocultural, indispensáveis à construção de uma Literatura Nacional plural, inclusiva e comprometida com a justiça simbólica e o desenvolvimento cultural sustentável.
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