Educação, Cultura e Desenvolvimento em
Angola: Perspectivas e Práticas
poder ou que com ele interagem (administradores, grandes comerciantes e criados).
Nesse período, o bilinguismo atinge apenas um pequeno grupo de indivíduos,
enquanto a maioria da população permanece monolíngue em suas línguas de origem.
O segundo estádio, que Kukanda denomina de horizontal, caracteriza-se pelo recuo das
línguas locais em função de uma escala geográfica: a cidade contra o campo. Nessa fase,
verifica-se a tendência de certos grupos sociais em abandonar a língua dominada e
adotar exclusivamente a língua colonial, criando um novo monolinguismo. Ao mesmo
tempo, as classes populares urbanas, até então monolíngues nas línguas locais,
começam a adquirir progressivamente a língua do colonizador.
A terceira e última fase representa a síntese das anteriores, isto é, a consolidação do
recuo das línguas dominadas e a expansão da língua colonial em múltiplos domínios
da vida social. Analisando o pensamento de Kukanda, pode-se compreender que
nenhum administrador colonial, por mais longa que fosse sua permanência em
determinado espaço, teria poder absoluto para aniquilar a cultura de um povo e
destruir totalmente as suas línguas. O caso de Angola, com cerca de cinco séculos de
presença colonial, mostra que, apesar da imposição da língua portuguesa, sempre
existiram focos de resistência linguística e cultural. Exemplo disso encontra-se no
Reino do Ndongo, através da liderança da Rainha Nzinga Mbandi, uma das figuras
mais emblemáticas da história de Angola, cuja luta simboliza a resiliência cultural e
linguística do povo angolano diante da pressão colonial.
Na sua carta enviada ao Governador português Fernão de Sousa, em fevereiro de
1629, a soberana africana afirma:
Ao v/Governador, Sr. Fernão de Sousa. Ide dar-lhe este meu recado. E dizei-lhe
também que o nome de Ana de Sousa que o outro me quis oferecer não pegou. Não
podia pegar. O mesmo sucede com as minhas irmãs: a Kambu não quer o nome de
Bárbara; a Fuxi manda dizer que o seu nome é mesmo Fuxi. Que ide aplicar o nome de
Engrácia às vossas filhas que ides parindo, vós outros. Mau grado os esforços todos
meus para uma possível conciliação entre vós e nós, entre as vossas coisas e as nossas.
Mas gostaria eu de vos perguntar se já vos capacitastes de que estais a bater-vos por
uma razão da qual nunca saireis vitoriosos. Talvez seja melhor lembrar-vos de que os
filhos de meu pai não desistirão jamais de combater; havemos todos de lhe seguir o
exemplo. A todo o custo defenderemos a independência e a liberdade da terra de nossos
pais e avós (Pacavira, 1985, citado por Kukanda, 1988, p. 56).
Revista Científica Multidisciplinar Nkwa Zayi | Vol. 01 | N. 01 | Janeiro – Junho | pp. 30 - 47 | Ano 2026
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