Revista Científica Multidisciplinar Nkwa Zayi | Vol. 01 | N. 01 | Janeiro – Junho | pp. 103 - 127 | Ano 2026
Educação, Cultura e Desenvolvimento em
Angola: Perspectivas e Práticas
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Impacto das aulas laboratoriais no ensino da electrotécnica:
estudo de caso do Instituto Superior Politécnico (ISP) do Soyo
Impact of laboratory classes on the teaching of electrical engineering: case study of
the Instituto Superior Politécnico (ISP) of Soyo
Impact des travaux pratiques sur l'enseignement de l'électrotechnique : étude de cas
de l'Institut Supérieur Polytechnique (ISP) de Soyo
Maso Leopardo
1
Instituto Superior Politécnico do Soyo, Angola
masoleopardomaso@gmail.com
Resumo
Este artigo teve como objectivo analisar o impacto das aulas laboratoriais no processo de
ensino-aprendizagem da disciplina de Electrotécnica, ministrada no 4.º ano do curso de
Engenharia de Organização Industrial e Manutenção do Instituto Superior Politécnico do
Soyo. A pesquisa partiu do reconhecimento de que, nas áreas técnicas, quando o ensino é
exclusivamente teórico, limita a compreensão prática dos conteúdos e compromete a formação
integral dos futuros engenheiros. Através de uma abordagem mista, com a aplicação de
questionários a 17 estudantes que corresponde ao universo e amostra, foram identificadas pelo
professor fragilidades na articulação entre teoria e prática, bem como limitações
infraestruturais. Os resultados obtidos mostram que a implementação de aulas laboratoriais
melhora significativamente a aprendizagem, fortalece o domínio técnico e aumenta a
motivação dos estudantes. O estudo propõe investir na formação continuada de professores,
melhorar a gestão dos recursos materiais disponíveis e fomentar uma cultura institucional
voltada para a pedagogia activa e o pleno uso dos laboratórios como espaços de vivência para
a aprendizagem.
Palavras-chave: Impacto das aulas laboratoriais; Ensino da eletrotécnica; Instituto Superior
Politécnico do Soyo.
Abstract
This study aimed to analyze the impact of laboratory classes on the teaching–learning process
of the Electrical Engineering course offered in the 4th year of the Industrial Organization and
Maintenance Engineering program at the Instituto Superior Politécnico do Soyo. The research
was based on the recognition that, in technical fields, exclusively theoretical instruction limits
practical understanding of the content and compromises the comprehensive training of future
engineers. Using a mixed-methods approach, with questionnaires applied to 17 students
representing the entire population and sample, the professor identified weaknesses in the
1
Mestre em Direção Estratégica em Telecomunicações , Licenciado em Ensinso de Física, Docente do Curso de
Licenciatura em Engenharia em Organização e Manutenção Industrial do Instituto Superior Politécnico do Soyo
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integration of theory and practice, as well as infrastructural limitations. The results indicate
that the implementation of laboratory classes significantly improves learning outcomes,
strengthens technical skills, and increases student motivation. The study recommends
investing in continuous teacher training, enhancing the management of available material
resources, and fostering an institutional culture focused on active pedagogy and the full
utilization of laboratories as experiential learning environments.
Keywords: Impact of laboratory classes; Electrical Engineering education; Instituto Superior
Politécnico do Soyo.
Résumé
Cette étude avait pour objectif d’analyser l’impact des cours pratiques sur le processus
d’enseignement-apprentissage de la discipline d’électrotechnique, dispensée en 4ᵉ année du
programme d’ingénierie en organisation industrielle et maintenance à l’Instituto Superior
Politécnico do Soyo. La recherche partait du constat que, dans les domaines techniques, un
enseignement exclusivement théorique limite la compréhension pratique des contenus et
compromet la formation intégrale des futurs ingénieurs. Grâce à une approche mixte, avec
l’application de questionnaires à 17 étudiants représentant l’ensemble de la population et de
l’échantillon, le professeur a identifié des faiblesses dans l’articulation entre théorie et pratique
ainsi que des limitations infra-structurelles. Les résultats obtenus montrent que la mise en
œuvre des cours pratiques améliore significativement l’apprentissage, renforce les
compétences techniques et augmente la motivation des étudiants. L’étude propose d’investir
dans la formation continue des enseignants, d’améliorer la gestion des ressources matérielles
disponibles et de promouvoir une culture institutionnelle axée sur la pédagogie active et
l’utilisation complète des laboratoires comme espaces d’apprentissage expérientiel.
Mots-clés : Impact des cours pratiques; Enseignement de l’électrotechnique ; Instituto
Superior Politécnico do Soyo.
Introdução
No actual contexto do ensino técnico e tecnológico, as aulas laboratoriais
desempenham um papel essencial na articulação entre teoria e prática, promovendo
aprendizagens mais significativas e duradouras. O ensino da Electrotécnica, pela sua
própria natureza, requer não só a compreensão conceptual de teorias como: circuitos,
medições, dispositivos de medição e sistemas eletromagnéticos, mas também o
domínio operacional de ferramentas, equipamentos e procedimentos técnicos.
Nesse sentido, a ausência de atividades práticas no ensino de Electrotécnica limita o
desenvolvimento das competências esperadas no perfil profissional dos alunos. No
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Instituto Superior Politécnico do Soyo, em Angola, nota-se que, apesar da existência
de alguns recursos físicos para a realização de práticas laboratoriais, estes ainda são
pouco explorados, comprometendo a qualidade da formação. A situação detalhada
leva-nos a formular o seguinte problema de investigação: quais os impactos da
implementação limitada de aulas laboratoriais no desempenho académico dos alunos
do 4.º ano do curso de Engenharia em Organização e Manutenção Industrial.
Este artigo procurou refletir criticamente sobre os efeitos da efetiva implementação de
aulas práticas no desempenho académico de estudantes do quarto ano do curso de
Engenharia em Organização e Manutenção Industrial, a fim de sugerir estratégias para
superar os obstáculos pedagógicos encontrados. Especificamente, o estudo procura
examinar a perceção dos alunos sobre a importância das aulas práticas para a
compreensão dos tópicos teóricos da disciplina de eletrotécnica, além de identificar os
principais obstáculos encontrados na realização de tarefas práticas e a sua conexão com
o desempenho académico.
O assentamento teórico baseia-se em autores como: Billett (2021), que menciona que
a formação profissional depende muito da interação activa que os estudantes têm com
os instrumentos. Male at al. (2021), indicam que ambienets com laboratúrios
estruturados promovem maior transferencia de aprendizagem para contextos reais de
trabalho.Yadav (2021), Thiong’o (2007), defendem uma educação descolonizada
baseada na realidade tangível dos africanos, e Mbembe (2016), que defende que a
reconstrução do conhecimento africano requer a valorização da experiência e a
reformulação dos métodos de ensino. A essa perspetiva incorporam-se as
contribuições de pedagogos como Piaget (1976), que enfatiza a relevância da ação na
formação do conhecimento, e Freire (1987), que defende uma educação
problematizadora, dialógica e transformadora.
Na área da engenharia educacional Kolb (1984), com a sua teoria da aprendizagem
experiencial, enfatiza a relevância da experimentação como pilar fundamental para a
aprendizagem em campos técnicos. Vale ressaltar que as conceções de Morin (2000),
ao abordar a complexidade do conhecimento e a necessidade de um ensino mais
integrado, também são levadas em consideração. Assim, esta investigação baseia-se
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numa perspetiva crítica e interdisciplinar, que une educação, engenharia e
epistemologias africanas, visando contribuir para a melhoria do ensino técnico em
Angola.
Para Libâneo (2013), o ensino integrado é uma abordagem pedagógica que procura
articular diferentes disciplinas, saberes e experiências em torno de objetivos comuns
de aprendizagem, superando a tradicional fragmentação do conhecimento. Percebe-se
que, ao invés de tratar os conteúdos isoladamente, o ensino integrado propõe uma
visão mais global, contextualizada e significativa, conectando teoria e prática, ciência
e realidade social, conhecimento técnico e valores humanos. Sem dúvida, esta
abordagem é a mais necessária atualmente.
Referencial Teórico
No ensino técnico e de engenharia, a prática laboratorial não é um complemento
opcional, mas um eixo primordial para a consolidação de competências. De acordo com
Seymour e Hewitt (1997), muitos alunos de áreas técnicas abandonam a formação
devido à falta de conexão entre a teoria aprendida e a prática esperada. Muitos deles
constatam que a realidade do ensino médio é a mesma encontrada no ensino superior,
essa lacuna compromete a educação integral, como também é apontado por Kolb
(1984), quando destaca que a aprendizagem efetiva ocorre através do ciclo
experimental onde a experimentação concreta e a observação reflexiva são
indispensáveis.
No contexto africano, Wa Thiong'o (2007) defende que a pedagogia deve estar
enraizada na realidade concreta dos alunos, o que requer metodologias práticas e
contextualizadas. Da mesma forma, Mbembe (2016) argumenta que a descolonização
do conhecimento envolve a valorização das experiências locais e a rutura com modelos
meramente expositivos e coloniais de ensino. Nota-se ainda que o ensino é feito apenas
com lousa, giz e livros, situação que muitas vezes não facilita a assimilação dos alunos.
As aulas laboratoriais podem ser entendidas como espaços essenciais para a aplicação
prática de conteúdos teóricos, nos quais os alunos constroem conhecimento através da
experimentação, observação, manipulação de materiais e resolução de problemas
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concretos. Estes ambientes representam uma ponte entre o conhecimento abstrato e a
sua materialização no mundo real, favorecendo aprendizagens mais significativas e
duradouras.
Segundo Libâneo (2013), é fundamental que a prática pedagógica promova uma
articulação dialógica entre teoria e prática, de modo a possibilitar ao aluno a
compreensão plena do conteúdo. Essa perspetiva é compartilhada por Paulo Freire
(1987), que defende uma educação libertadora, construída a partir da experiência
concreta dos sujeitos, e por Bernstein (2003), que analisa a importância da
recontextualização do conhecimento na prática pedagógica. Na área da Eletrotécnica,
as aulas laboratoriais são cruciais para o desenvolvimento de competências técnicas
específicas, tais como medições de grandezas elétricas, interpretação de esquemas,
utilização de equipamentos de medição, montagem de circuitos, manuseamento de
instrumentos eletrónicos e realização de simulações computacionais.
Como defende Perrenoud (2000), a competência só se consolida através da prática
repetida em situações reais ou simuladas, o que reforça o papel dos laboratórios como
espaços estratégicos na formação profissional. Em contextos como o angolano, onde
os desafios infraestruturais ainda limitam a plena utilização dos espaços técnicos, a
ausência de práticas laboratoriais no ensino da Eletrotécnica compromete seriamente
o processo de significação dos conteúdos. Os alunos submetidos exclusivamente a
abordagens teóricas são privados da oportunidade de experimentar, testar hipóteses e
observar fenómenos em ação, fatores essenciais para o desenvolvimento de uma
postura crítica e investigativa.
Autores africanos como Cheikh Anta Diop (1981) e Felwine Sarr (2016) reforçam a
importância de uma educação ancorada na realidade local, capaz de capacitar os
sujeitos e prepará-los para intervir com competência e criatividade nos seus contextos.
Do ponto de vista técnico-pedagógico, educadores de engenharia como Felder (2005)
e Salomão (2001) enfatizam que a aprendizagem ativa e experiencial tem maior
impacto na motivação e no desempenho dos alunos, especialmente nos cursos de
engenharia. Assim, é fundamental repensar a estrutura curricular e os recursos
didático-pedagógicos dos cursos técnicos e de engenharia, promovendo a efetiva
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integração entre teoria e prática, de modo a garantir uma educação crítica,
contextualizada e transformadora.
A Integração Teoria-Prática no Ensino de Técnicas Eléctricas
O ensino Técnico exige mais do que o domínio de fórmulas e esquemas, requer a
manipulação de circuitos, a observação de fenómenos eletromagnéticos e o diagnóstico
de falhas em sistemas elétricos. Hestenes (1992), um dos defensores da aprendizagem
baseada em modelos conceituais em física e engenharia, enfatiza que o raciocínio
técnico se desenvolve melhor quando os alunos "fazem e observam".
O mesmo é defendido por Graells (2000), quando afirma que o conhecimento técnico
só adquire sentido quando se transforma em ação concreta, o que é mais um motivo
para massificar as aulas laboratoriais. A integração entre teoria e prática é essencial
para a formação de profissionais capazes de atuar de forma autónoma, crítica e
tecnicamente competente. Zabala (1998) defende que a aprendizagem significativa só
ocorre quando os conteúdos escolares são vivenciados e contextualizados, permitindo
ao aluno construir conexões entre o conhecimento teórico e as situações práticas com
as quais terá que lidar no campo profissional.
Além disso, a literatura sobre didática das ciências aponta que o contacto direto com
os instrumentos, equipamentos e fenómenos técnicos estudados desperta curiosidade
científica, fortalece o raciocínio lógico e estimula a autonomia na resolução de
problemas (Moreira e Masini, 2001). Estas competências são cruciais para os cursos
de engenharia, onde o “conhecimento” é tão relevante como o conhecimento
conceptual. As aulas laboratoriais também permitem uma aproximação com o mundo
do trabalho, pois simulam situações práticas como projetos, testes, medições e
manutenção de sistemas elétricos, reforçando a relação entre o conteúdo acadêmico e
as demandas do setor produtivo (Silva et al., 2020). Sem essas experiências, os alunos
podem se formar com aprendizagem rotativa e desconectada das habilidades práticas
que a prática profissional exige. Portanto, a ausência ou utilização limitada de práticas
laboratoriais no ensino de Eletrotécnica representa uma fragilidade pedagógica, pois
impede o pleno desenvolvimento das habilidades técnicas e cognitivas necessárias ao
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desempenho profissional. A valorização da prática não é um complemento, mas um
eixo estruturante na formação em engenharia.
No ensino técnico e de engenharia, a prática laboratorial constitui um eixo estruturante
para a consolidação de competências técnicas, cognitivas e profissionais. Estudos
recentes em educação em engenharia demonstram que ambientes de aprendizagem
baseados em laboratório promovem maior retenção do conhecimento,
desenvolvimento do raciocínio aplicado e melhoria da motivação discente (Prince &
Felder, 2020; Freeman et al., 2023). A literatura contemporânea aponta que a
aprendizagem activa em contextos experimentais favorece a construção significativa
do conhecimento, sobretudo em áreas como a Eletrotécnica, onde os fenómenos
elétricos exigem visualização, medição e manipulação prática.
De acordo com Freeman et al. (2023), em revisão sistemática publicada no
Proceedings of the National Academy of Sciences, métodos activos incluindo práticas
laboratoriais aumentam significativamente o desempenho académico em cursos
STEM. Do mesmo modo, a meta-análise de Theobald et al. (2020) demonstra que
estratégias activas reduzem desigualdades de aprendizagem e aumentam a
participação estudantil em cursos técnicos.
No contexto da educação técnica em países em desenvolvimento, autores como Tikly
(2021) defendem que a qualidade do ensino profissional depende diretamente da
articulação entre infraestrutura, prática pedagógica e contextualização curricular. A
ausência de laboratórios funcionais compromete a aprendizagem situada, conceito
amplamente discutido por Lave e Wenger e recentemente aprofundado por Billett
(2021), que reforça que competências profissionais só se consolidam através da
participação activa em práticas reais ou simuladas.
As aulas laboratoriais podem ser compreendidas como ambientes de aprendizagem
experiencial estruturada, nos quais os estudantes constroem conhecimento por meio
da experimentação orientada, da resolução de problemas técnicos e da reflexão crítica
sobre resultados obtidos. Segundo Kolb e Kolb (2022), a aprendizagem experiencial
contemporânea enfatiza que a experimentação concreta é indispensável para a
consolidação de competências técnicas complexas.
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Na área da Eletrotécnica, os laboratórios permitem o desenvolvimento de
competências como:
1. Medição de grandezas elétricas (tensão, corrente, resistência)
2. Interpretação de esquemas elétricos
3. Diagnóstico de falhas
4. Montagem e teste de circuitos
5. Simulação computacional de sistemas elétricos
Segundo Male, Bush e Chapman (2021), no Journal of Engineering Education, cursos
de engenharia que incorporam práticas laboratoriais estruturadas apresentam melhor
desempenho na transferência de conhecimento para contextos profissionais.
Além disso, estudos recentes indicam que a aprendizagem baseada em problemas
(PBL) associada ao laboratório melhora a capacidade de tomada de decisão técnica
(Yadav et al., 2021). Isso é particularmente relevante em contextos como o angolano,
onde desafios infraestruturais podem limitar o desenvolvimento pleno das
competências práticas exigidas pelo mercado de trabalho.
A ausência sistemática de aulas laboratoriais conduz a um ensino predominantemente
transmissivo, reduzindo a aprendizagem a processos memorísticos e desconectados da
prática profissional. Conforme argumenta UNESCO-UNEVOC (2022), a educação
técnica e profissional (TVET) eficaz requer investimento em infraestrutura laboratorial
para garantir qualidade e empregabilidade.
Limitações estruturais e práticas pedagógicas
Quando falamos em limitações estruturais, referimo-nos às condições físicas,
tecnológicas e infraestruturais inadequadas para o desenvolvimento de aulas práticas
e teóricas de engenharia elétrica. Os laboratórios do ISP Soyo estão equipados com
instrumentos de manutenção elétrica, ótica e mecânica. Apesar das limitações, já
possibilitam a realização das práticas. Embora existam laboratórios físicos, esses
espaços nem sempre são totalmente utilizados. Makoe (2010) denuncia a existência de
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uma "infraestrutura ociosa" em várias escolas técnicas africanas, resultado de políticas
educacionais mal integradas.
De acordo com a UNESCO-UNEVOC (2022), a eficácia da Educação e Formação
Técnico-Profissional (TVET) depende diretamente da disponibilidade de laboratórios
equipados, manutenção regular dos instrumentos e formação pedagógica dos docentes
para uso adequado dos recursos técnicos. A organização ressalta que sistemas
formativos com infraestrutura deficitária tendem a produzir profissionais com lacunas
práticas significativas, reduzindo sua empregabilidade e capacidade de inovação.
No campo específico da educação em engenharia, estudos publicados no Journal of
Engineering Education indicam que ambientes com laboratórios estruturados
promovem maior transferência de aprendizagem para contextos reais de trabalho
(Male, Bush & Chapman, 2021). Em contrapartida, instituições que operam com
equipamentos obsoletos ou com acesso restrito aos espaços laboratoriais apresentam
menores índices de desenvolvimento de competências técnicas aplicadas.
Além disso, muitos professores ainda recorrem a metodologias expositivas, por falta
de formação prática ou ausência de uma cultura pedagógica inovadora (Tavares &
Silva, 2021). Isso se deve, principalmente, à falta de formação prática dos professores,
à ausência de uma cultura de experimentação e às barreiras institucionais que
dificultam a inovação pedagógica. Mesmo quando se realizam aulas laboratoriais, estas
ocorrem muitas vezes de forma pontual, sem integração com o plano de estudos e com
excessiva ênfase na execução mecânica dos procedimentos, em detrimento da
investigação, da análise crítica e da resolução de problemas reais. Assim, para superar
essas limitações, é necessário investir na formação continuada de professores,
melhorar a gestão dos recursos físicos disponíveis e fomentar uma cultura institucional
voltada para a pedagogia ativa e o pleno uso dos laboratórios como espaços de vivência
para a aprendizagem.
Billett (2021) reforça que a aprendizagem profissional é essencialmente situada, isto é,
depende da interação ativa do estudante com instrumentos, problemas reais e
contextos técnicos específicos. Assim, quando o ensino da Eletrotécnica ocorre
predominantemente por meio de metodologias expositivas — centradas em lousa, giz
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e reprodução de esquemas limita-se o desenvolvimento do raciocínio técnico-
operacional e da autonomia profissional.
Além das limitações materiais, destacam-se também desafios pedagógicos. Segundo
Yadav et al. (2021), práticas docentes excessivamente transmissivas reduzem o
engajamento estudantil e dificultam a consolidação de competências em cursos de
engenharia. A literatura recente enfatiza a necessidade de integração entre
metodologias ativas, aprendizagem baseada em problemas (PBL) e experimentação
laboratorial estruturada, especialmente em disciplinas técnicas como Circuitos
Elétricos, Máquinas Elétricas e Instalações Industriais.
Em contextos como o angolano, onde instituições enfrentam restrições orçamentais e
dependência de equipamentos importados, as limitações estruturais podem gerar um
ciclo de fragilidade pedagógica: ausência de prática leva à formação teórica
descontextualizada, que por sua vez impacta negativamente a confiança profissional
do egresso e sua inserção no mercado de trabalho. Tal realidade reforça a necessidade
de políticas institucionais voltadas à modernização laboratorial, parcerias com
empresas do setor elétrico e capacitação contínua dos docentes. Portanto, as limitações
estruturais e pedagógicas não devem ser compreendidas apenas como obstáculos
administrativos, mas como fatores determinantes na qualidade da aprendizagem
técnica. No ensino da Eletrotécnica, a prática laboratorial não constitui elemento
complementar, mas sim estruturante do processo formativo.
Motivação dos Alunos e Aprendizagem Activa
Note-se que estudos como o de Deci e Ryan (2000) demonstram que a motivação
intrínseca dos estudantes aumenta significativamente quando se sentem participantes
ativos no processo. Freire (1996) reforça a ideia de que o educando não é um recipiente
a ser preenchido, mas um sujeito ativo e crítico, cuja aprendizagem requer diálogo,
experimentação e contexto. Nesse sentido, as aulas laboratoriais, além de
desenvolverem habilidades técnicas, favorecem o engajamento e a autonomia
intelectual dos estudantes.
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O laboratório é visto como um espaço de diálogo e descobertas, as aulas laboratoriais,
quando bem orientadas, criam condições para que o aluno experimente, questione,
valide ideias através da prática. Ao entrar no laboratório, o aluno deixa de ser um
simples ouvinte, pelo contrário, ele ainda se torna um pesquisador, e responsável pela
descoberta, rompendo com a antiga metodologia que consistia apenas em aulas
expositivas. Assim, a aprendizagem torna-se mais significativa.
Autores africanos contemporâneos como Sarr (2016) e Santos (2008) defendem uma
abordagem educacional centrada na transformação social, na valorização do
conhecimento local e na democratização do conhecimento técnico. Para isso, é
necessário rever as práticas de ensino, formar professores em metodologias ativas, no
uso de laboratórios e investir na reestruturação dos espaços físicos com base nas reais
necessidades de formação dos cursos técnicos e de engenharia.
Para tornar a aprendizagem mais significativa e transformadora, face ao problema
apresentado, a proposta para a sua superação assenta na valorização de metodologias
ativas: nos currículos, enquanto promovem a aprendizagem baseada em projetos, a
aprendizagem por investigação e o ensino pela resolução de problemas como parte
integrante das aulas práticas e teóricas. Diante da escassez de materiais, os
departamentos precisam incentivar os professores a reutilizar equipamentos antigos
para estudos e análises de desmontagem, promover parcerias com instituições e
empresas para a realização de visitas técnicas, garantir estágios e mentorias,
Procedimentos metodológicos
A presente pesquisa é um estudo de caso com abordagem metodológica mista, de
carácter descritivo e exploratório. O estudo foi realizado no Instituto Superior
Politécnico do Soyo, localizado na província do Zaire, Angola, durante o ano letivo de
2024. A adoção da abordagem mista justifica-se na perspetiva de Mattar e Ramos
(2021, p. 134). Como apontam, a combinação de dados numéricos e narrativos permite
captar com maior riqueza a complexidade dos fenómenos estudados. Na mesma linha,
Creswell e Creswell (2021) enfatizam que a pesquisa mista favorece a triangulação e a
complementaridade metodológica, fortalecendo a validade dos resultados. O universo
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e a amostra corresponderam a 17 estudantes, representando 100% dos matriculados
no 4.º ano do curso de Engenharia de Organização Industrial e Manutenção.
A amostragem foi intencional e por conveniência, uma vez que todo o universo possível
do grupo-alvo foi incluído no período da pesquisa. Os critérios de inclusão abrangeram
apenas os estudantes que estavam efetivamente matriculados e frequentando
regularmente o curso de Electrotécnica durante o período de coleta de dados. A coleta
de dados foi realizada por meio de um questionário híbrido, composto por 10 questões
fechadas e abertas, aplicadas presencialmente em sala de aula, num único momento,
com duração aproximada de 45 minutos. Esta estratégia procurou garantir uma maior
autenticidade nas respostas, reduzindo enviesamentos decorrentes de múltiplas
aplicações.
O principal objectivo do instrumento foi compreender, na perspetiva dos próprios
estudantes, os impactos da presença (ou ausência) de aulas práticas no processo de
aprendizagem da disciplina de Eletrotécnica. Para tanto, o questionário foi estruturado
para contemplar múltiplas dimensões relacionadas ao ensino técnico-prático, em
consonância com a recomendação de Creswell e Creswell (2021) sobre o uso de
instrumentos capazes de captar dados objetivos e subjectivos.
A dimensão qualitativa, por sua vez, possibilitou explorar as perceções dos estudantes
por meio de respostas abertas e análises interpretativas, visando captar elementos
subjetivos relacionados à utilidade, dificuldades e expectativas relativamente às
práticas laboratoriais. O estudo de caso, conforme defendido por Yin (2001), mostra-
se particularmente adequado quando se busca compreender fenómenos
contemporâneos em contextos específicos e complexos, caracterizados por múltiplas
variáveis em interação, como o processo de ensino-aprendizagem nos cursos de
engenharia.
Os dados recolhidos foram analisados por meio de uma abordagem mista, combinando
técnicas quantitativas e qualitativas. As respostas fechadas do questionário foram
organizadas, codificadas e tratadas com recurso à estatística descritiva, utilizando
frequências absolutas e relativas, o que permitiu identificar tendências e padrões na
percepção dos estudantes sobre o impacto das aulas laboratoriais. Já as respostas
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abertas foram submetidas à análise de conteúdo, seguindo as etapas de pré-análise,
categorização temática e interpretação, permitindo identificar unidades de sentido
recorrentes relacionadas à compreensão prática, motivação, consolidação dos
conhecimentos e desenvolvimento de competências técnicas. A triangulação dos dados
quantitativos e qualitativos possibilitou uma interpretação mais robusta e consistente
dos resultados, reforçando a validade interna do estudo.
Apresentação e Discussão de Resultados
Figura
.1-Participação e perceção dos estudantes
Fonte: Inquérito por questionário aos estudantes, ISP-Soyo, 2025
Entre os 17 estudantes participantes do estudo, 88% indicaram que as aulas teóricas,
por si só, não são suficientes para uma compreensão completa dos conteúdos das
diversas disciplinas do curso, especialmente as relacionadas a medições, circuitos
elétricos e instalação de sistemas, como ocorre nas disciplinas de instalações elétricas,
onde predominam abordagens estritamente teóricas. Além disso, observou-se que 76%
dos estudantes afirmaram que só conseguiam compreender completamente os temas
após experimentarem simulações ou demonstrações práticas. Essa perceção ficou
evidente nas respostas coletadas, como ilustra a seguinte afirmação: "Quando só
escutamos, esquecemos. Mas quando vemos e fazemos, realmente entendemos." Essa
valorização da prática reforça a importância da experimentação e do contato direto
com os conteúdos como estratégias centrais para a construção do conhecimento e o
88%
76%
Estudantes que consideram as aulas
teóricas insuficientes
Estudantes que compreendem os
temas após simulações ou
demonstrações
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desenvolvimento das habilidades técnicas esperadas. monta a tabela que vou usar para
montar o gráfico
Figura. 2- Falta de recursos laboratoriais
Fonte: Inquérito por questionário aos estudantes, ISP-Soyo, 2025
A maioria dos estudantes (16) relatou a existência de laboratórios de fundamentos de
mecânica, eletricidade e ótica na instituição, no entanto, esses espaços são pouco
frequentados. Apesar de existirem laboratórios equipados, a falta de determinados
instrumentos e a irregularidade na realização das aulas práticas são os principais
obstáculos a uma aprendizagem eficaz. Para 94% dos participantes, a ausência de
atividades práticas compromete diretamente a preparação para o mercado de trabalho
industrial. Tal perceção evidencia uma desconexão entre o modelo pedagógico
proposto e a realidade da instituição, refletindo uma abordagem que, embora
tecnicamente estruturada, continua distante das demandas do setor produtivo local.
94%
6%
Impacto na aprendizagem
Sem Impacto na apreendizagem
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Figura.3 -Expectativas versus realidade das aulas práticas
Fonte: Inquérito por questionário aos estudantes, ISP-Soyo, 2025
Quando questionados sobre as expectativas relativamente às aulas práticas no início
do curso, 82% dos estudantes afirmaram que esperavam um ensino mais aplicado e
focado na realidade do trabalho técnico. No entanto, apenas 18% referiram ter tido
experiências práticas satisfatórias ao longo da formação. "Entramos pensando que
íamos aprender mexendo as coisas, mas quase tudo estava apenas no quadro" (Trecho
da resposta aberta). Isso revela uma dissonância entre o currículo formal e a prática
pedagógica efetiva, o que pode gerar frustração e insegurança profissional.
Figura. 4-Importância da experimentação para uma aprendizagem
duradoura
Fonte: Inquérito por questionário aos estudantes, ISP-Soyo, 2025
Em resposta à importância atribuída às atividades práticas, 100% dos inquiridos
concordaram que a experimentação favorece a retenção de conteúdos e a autonomia
82%
18%
Expectativa de ensino mais aplicado
e focado na realidade do trabalho
técnico
Experiências práticas satisfatórias
ao longo da formação
100%
71%,
A experimentação favorece a
retenção de conteúdos
A falta de experimento enfrequece
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na resolução de problemas, que gostariam de ter aulas mais práticas. Para 71%, a falta
de prática regular torna a aprendizagem "esquecível". Um estudantes destacou:
"Quando tocamos nos fios, aparelhos de medição, componentes eletrónicos e outros, e
o professor explica, é aí que tudo faz sentido". A experiência prática surge como um
elemento fundamental para consolidar conhecimentos técnicos e desenvolver
competências operacionais.
Figura. 5-Limitações dos professores face à falta de recursos
Fonte: Inquérito por questionário aos estudantes, ISP-Soyo, 2025
Embora os estudantes reconheçam o esforço dos professores, 65% referiram que
também enfrentam dificuldades por falta de recursos ou apoio institucional. "O
professor quer fazer prática, mas às vezes falta material básico" (Trecho da resposta
aberta). A ausência de apoios estruturais acaba por restringir a ação pedagógica,
transferindo para os professores a responsabilidade de improvisar perante as
deficiências.
65%
35%
Falta de recursos ou apoio
institucional
Ausencia de Apoios estruturais
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Figura. 6-Simulações computacionais: uma alternativa viável, mas
insuficiente
Fonte: Inquérito por questionário aos estudantes, ISP-Soyo, 2025
A introdução de simulações computacionais foi mencionada por 53% dos estudantes
como um paliativo útil, especialmente quando o equipamento físico não está
disponível. No entanto, 78% destacaram que as simulações não substituem o contacto
direto com os instrumentos. "No computador parece fácil, mas na realidade é outra
coisa" (Excerto da resposta aberta). A simulação, embora educativa, precisa ser
articulada com práticas reais para não alimentar uma ilusão de domínio técnico.
Figura.7- Impacto emocional e motivacional da falta de prática
Fonte: Inquérito por questionário aos estudantes, ISP-Soyo, 2025
Os resultados mostram que 64% dos entrevistados relataram uma queda na motivação
para estudar a disciplina devido à escassez de atividades práticas. Entre os termos mais
utilizados em respostas abertas estão: "frustração", "desânimo" e "despreparo". Um
53%
78%
Utilidade das simulações
computacionais
Limitações das simulações
64%
36%
Queda de motivação
Sentem-se motivados
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aluno disse: "Como vamos amar a Eletrotécnica se nunca vimos um circuito
funcionando aqui na escola?" Isso mostra que a ausência de prática não só compromete
o conhecimento técnico, mas também afeta o envolvimento emocional e a identidade
profissional na formação.
Figura. 8- A visão dos estudantes sobre a sua própria formação técnica
Fonte: Inquérito por questionário aos estudantes, ISP-Soyo, 2025
Quando solicitados a avaliar a sua formação prática até agora, 81% dos estudantes
classificaram-na como "fraca" ou "incompleta", com muitas teorias, a prática está mais
no estágio. Apenas 2 inquiridos se consideraram suficientemente preparados para
desafios reais de manutenção e instalação em contextos industriais. "Tenho medo de
concluir o curso e ir para o estágio sem saber fazer quase nada com as mãos" (Excerto
da resposta aberta). Essa afirmação reflete o sentimento de vulnerabilidade técnica no
mercado de trabalho.Este quadro evidencia uma perceção predominante entre os
estudantes de que a formação prática oferecida até o momento é insuficiente para
prepará-los adequadamente para o mercado de trabalho.
A maioria dos estudantes expressa preocupação quanto à sua capacidade de aplicar
conhecimentos técnicos, na prática, refletindo uma vulnerabilidade técnica que pode
impactar a sua empregabilidade e confiança ao ingressar em ambientes industriais. A
baixa percentagem de estudantes que se sentem preparados para desafios reais reforça
a necessidade de melhorias no currículo de formação prática, incluindo maior ênfase
em atividades de instalação, manutenção e resolução de problemas em contextos reais.
98%
2%
Classificação como "Fraca" ou
"Incompleta"
Suficientemente preparados
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Além disso, a preocupação expressa na resposta aberta demonstra a importância de
integrar experiências práticas mais concretas e relevantes, de modo a reduzir o
sentimento de insegurança e aumentar a competência técnica dos futuros
profissionais.
Figura. 9- Melhorias sugeridas pelos próprios estudantes
Fonte: Inquérito por questionário aos estudantes, ISP-Soyo, 2025
Questionados sobre possíveis soluções, os estudantes apresentaram sugestões
consistentes: 88% pedem mais horas semanais dedicadas aos treinos, 76% defendem
a contratação de técnicos de laboratório e 65% sugerem parcerias com empresas para
estágios supervisionados, uma vez que são poucas as empresas que aceitam estagiários.
"Se não há como configurar tudo aqui, que nos levem para ver onde realmente é feito"
(Trecho da resposta aberta). As propostas apontam para o desejo de uma educação
mais conectada à realidade profissional e marcada pela prática aplicada.
Discussão dos Resultados
Os dados analisados nesta investigação confirmam a hipótese inicial de que a ausência
de atividades laboratoriais no ensino de eletrotécnica compromete significativamente
o seu processo de ensino-aprendizagem. Os principais resultados são discutidos à luz
da literatura científica.Os resultados indicam que 88% dos estudantes consideram o
ensino teórico insuficiente para a compreensão dos conteúdos. Essa perceção
corrobora as afirmações de Hestenes (1992), que argumenta que a aprendizagem nas
disciplinas técnicas depende de modelos conceituais ligados à experiência prática.
88
76
65
Mais horas semanais dedicadas aos
treinos
contratação de técnicos de
laboratório
parcerias com empresas para
estágios supervisionados
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Segundo Ausubel (2003), a aprendizagem significativa ocorre quando o aluno
relaciona o novo conteúdo a experiências concretas, o que raramente acontece em
abordagens exclusivamente expositivas. Apesar da existência de laboratórios no ISP
Soyo, a sua utilização é limitada. Essa realidade reflete o conceito de "infraestrutura
ociosa" descrito por Makoe (2010), que critica a má gestão e o planeamento
educacional nas instituições africanas. A ausência de aulas práticas regulares, mesmo
com equipamentos disponíveis, revela um descompasso entre a estrutura física e a
prática pedagógica.
A discrepância entre as expectativas dos estudantes e a realidade vivida (com apenas
18% relatando experiências práticas satisfatórias) revela uma lacuna entre o currículo
formal e o ensino. Segundo Perrenoud (2000), tal desalinhamento compromete a
formação de competências profissionais e mina a confiança do aluno no processo
educativo. Todos os estudantes reconheceram que a experimentação favorece uma
aprendizagem duradoura. Isso está em consonância com a teoria de Kolb (1984), que
propõe a aprendizagem experiencial como essencial na formação técnica.
Quando os alunos "veem e fazem", consolidam conhecimentos em maior
profundidade, desenvolvendo raciocínio técnico e autonomia. Os professores são
reconhecidos como dedicados, mas limitados pela falta de recursos, pouca criatividade
e atualização, o que os obriga a improvisar. Segundo Tavares e Silva (2021), a ausência
de políticas institucionais que valorizem a formação prática perpétua uma cultura
pedagógica centrada na teoria e na desvalorização da experimentação.
Embora as simulações tenham sido vistas como úteis, os estudantes destacaram que
elas não substituem a prática real. Isso confirma os achados de Lima et al (2017), que
apontam que as simulações devem ser vistas como complementares, não substitutivas.
A aprendizagem técnica requer o contacto físico com os materiais e o desenvolvimento
da coordenação motora, algo que as simulações não oferecem totalmente.
Os sentimentos de frustração, desânimo e despreparo relatados por 64% dos
estudantes mostram que a formação técnica vai além do domínio dos conteúdos:
envolve também motivação e construção de identidade profissional (Pimenta ou
Anastasiou, 2014). A prática é, portanto, não só uma componente cognitiva, mas
também uma componente emocional do processo de formação.
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A perceção dos estudantes sobre a sua própria formação prática como "fraca" ou
"incompleta" revela uma legítima preocupação com a inserção no mercado de trabalho.
Segundo Libâneo (2013), o ensino técnico precisa ser articulado com as demandas do
mundo produtivo, sob pena de formar profissionais com diplomas, mas sem
habilidades aplicadas. As sugestões feitas pelos próprios estudantes, como mais carga
horária prática, contratação de técnicos de laboratório e parcerias com empresas, estão
em consonância com as recomendações da UNESCO (2018), que defende a
reestruturação do ensino técnico a partir de práticas reais e articulação com o setor
produtivo. Isso evidencia a maturidade crítica dos estudantes ao propor caminhos a
serem superados.
Conclusão
Os resultados obtidos demonstram que as aulas laboratoriais têm um impacto crucial
na assimilação dos conteúdos de Eletrotécnica, corroborando estudos anteriores que
defendem a aprendizagem ativa e experimental como elemento essencial na formação
de engenheiros (Silva &Pereira, 2020; Mbembe, 2017, no contexto crítico do ensino
técnico em África). Observa-se que a ausência sistemática de aulas práticas
compromete não só a consolidação dos conhecimentos técnicos, mas também a
autoconfiança dos estudantes frente aos desafios reais do setor industrial local. Esse
achado converge com os resultados de Chen, Wang e Zhang (2021), que indicam que a
prática contextualizada é um fator de retenção de conteúdo técnico e empregabilidade.
A hipótese inicial de que a implementação de aulas laboratoriais aumenta a eficácia do
ensino-aprendizagem em Eletrotécnica foi confirmada pela perceção unânime dos
estudantes e pelos padrões identificados nas respostas quantitativas e qualitativas.
Teoricamente, este estudo reforça a relevância de abordagens pedagógicas híbridas
que integrem teoria e prática. Na prática, destaca a necessidade de investimentos
estruturais e de formação, para que os laboratórios estejam operacionais e os
professores possam adotar metodologias ativas consistentes.
O estudo foi realizado com uma amostra restrita a 17 estudantes de uma única
instituição, o que limita a generalização dos resultados, sugere-se a realização de
estudos comparativos com outras instituições, bem como avaliações longitudinais para
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medir o impacto das práticas laboratoriais na empregabilidade e desempenho
profissional dos egressos. Em síntese, a pesquisa mostra que a ruptura entre teoria e
prática constitui um desafio estrutural e político para o ensino de engenharia no Soyo.
Superá-la requer compromisso institucional e investimento estratégico, reafirmando o
objetivo deste estudo: demonstrar que práticas laboratoriais consistentes são
determinantes para uma formação técnica sólida e socialmente relevante.
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International License. Ao submeter o manuscrito o autor está ciente de que os direitos de autor
passam para a Revista Científica Multidisciplinar N´Kwa Zayi.
Recebido: 21/08/2025
Aceite: 13/04/2026