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Mulheres autoras do Sul de Angola: do silêncio à construção de um cânone plural
Women authors from southern Angola: from silence to the construction of a plural
canon
Mujeres escritoras del sur de Angola: del silencio a la construcción de un canon plural
Eduardo Rosa
1
Instituto Superior de Ciências da Educação de Benguela, Angola
edcrrosa@gmail.com
Domingos Tavares
2
Instituto Superior de Ciências da Educação de Benguela, Angola
redacconsulto@gmail.com
Resumo
Este artigo propõe uma reflexão crítica sobre a literatura como espaço de resistência
simbólica, reconstrução identitária e afirmação cultural no contexto do Sul de Angola,
com foco na produção de mulheres autoras africanas de língua portuguesa, especialmente.
Partindo da constatação de que a historiografia literária angolana tem sido construída com
base em critérios selectivos e centralizados que privilegiam as regiões urbanas,
especialmente Luanda, analisa-se a dupla invisibilidade enfrentada pelas escritoras
oriundas do Sul do país, marcada tanto por dinâmicas patriarcais quanto por exclusões
geográficas, editoriais e socioculturais. Através de uma metodologia de natureza
descritiva, ancorada na análise documental e bibliográfica, o estudo examina as obras de
autoras como Ana Paula Tavares, Alda Lara, Deolinda Rodrigues e Lourença Francisco,
evidenciando como as suas produções em poemas, prosa, epistolografia e oralidade
articulam memória, ancestralidade, território e resistência. São textos que denunciam os
efeitos persistentes do colonialismo, da marginalização e da desigualdade estrutural no
Sul Global, ao mesmo tempo que reafirmam valores comunitários, saberes femininos e
vínculos intergeracionais. Ao propor o Sul de Angola como uma geopoética de
resistência, o trabalho contribui para o debate sobre a reconfiguração do cânone literário
angolano, reivindicando um espaço mais representativo para as vozes femininas
periféricas e para as práticas culturais locais. O estudo reforça, assim, a importância de se
valorizar essas narrativas como formas legítimas de acção estética, política e
sociocultural, indispensáveis à construção de uma Literatura Nacional plural, inclusiva e
comprometida com a justiça simbólica e o desenvolvimento cultural sustentável.
Palavras-chave: Literatura feminina, Sul de Angola, Cânone literário.
1
Doutorando em Estudos Linguísticos, Mestre em Ensino de Língua Portuguesa, Docente e Investigador no Instituto
Superior de Ciências da Educação de Benguela (ISCED-Benguela), Angola.
2
Mestre em Ensino de Língua Portuguesa, Coordenador do Clube Cultural Carpe Diem-IGS e Membro do
Departamento de Investigação Científica do Instituto Superior Politécnico Gregório Semedo (ISPS), Lubango, Angola.
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Abstract
This article offers a critical reflection on literature as a space for symbolic resistance,
identity reconstruction, and cultural affirmation in Southern Angola, focusing on the work
of Portuguese-speaking African women authors. Based on the observation that Angolan
literary historiography has been constructed on the basis of selective and centralising
criteria which privilege urban regions, especially Luanda, the study analyses the double
invisibility faced by women writers from the south of the country, marked both by
patriarchal dynamics and by geographical, editorial and sociocultural exclusions. Using
a descriptive methodology based on documentary and bibliographic analysis, the study
examines the works of authors such as Ana Paula Tavares, Alda Lara, Deolinda Rodrigues
and Lourença Francisco, highlighting how their productions in poetry, prose, epistolary
writing and oral tradition articulate memory, ancestry, territory and resistance. These texts
denounce the persistent effects of colonialism, marginalisation and structural inequality
in the Global South, while reaffirming community values, female knowledge and
intergenerational bonds. By proposing southern Angola as a geopoetics of resistance, the
work contributes to the debate on the reconfiguration of the Angolan literary canon,
claiming a more representative space for peripheral female voices and local cultural
practices. The study thus reinforces the importance of valuing these narratives as
legitimate forms of aesthetic, political and sociocultural action, indispensable to the
construction of a plural, inclusive national literature committed to symbolic justice and
sustainable cultural development.
Keywords: Women's literature, Southern Angola, Literary canon.
Resumen
Este artículo propone una reflexión crítica sobre la literatura como espacio de resistencia
simbólica, reconstrucción identitaria y afirmación cultural en el sur de Angola, centrando
su análisis en la producción de escritoras africanas de lengua portuguesa. El estudio parte
de una realidad insoslayable: la historiografía literaria angoleña se ha consolidado bajo
criterios selectivos y centralizadores que privilegian las zonas urbanas, especialmente
Luanda. Ante este panorama, se analiza la doble invisibilidade que enfrentan las autoras
del sur, condicionada tanto por dinámicas patriarcales como por exclusiones geográficas
y editoriales. Mediante un enfoque cualitativo de corte bibliográfico y documental, el
trabajo examina las obras de figuras fundamentales como Ana Paula Tavares, Alda Lara,
Deolinda Rodrigues y Lourença Francisco. Se destaca cómo sus producciones que
transitan por la poesía, la prosa, la epistolografía y la oralidad articulan la memoria, la
ancestralidad y el territorio. Son textos que denuncian las huellas del colonialismo y la
desigualdad estructural en el Sur Global, al tiempo que rescatan los valores comunitarios
y los conocimientos femeninos. Al proponer el sur de Angola como una geopoética de
resistencia, esta investigación contribuye a la necesaria reconfiguración del canon
literário nacional, reivindicando un espacio plural para las voces periféricas. El estudio
concluye que valorar estas narrativas es un acto de justicia simbólica, indispensable para
construir una literatura inclusiva y comprometida con el desarrollo cultural sostenible.
Palabras clave: Literatura femenina, Sur de Angola, Canon literario.
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Introdução
A literatura, enquanto construção simbólica, reflecte e participa das dinâmicas de poder
que moldam a memória colectiva e a identidade cultural das nações. Em Angola, o cânone
literário foi historicamente configurado a partir de critérios centralizadores, que
privilegiaram produções masculinas e urbanas, especialmente de Luanda, marginalizando
as vozes femininas e as expressões culturais das regiões periféricas, como o Sul do país.
As autoras do Sul de Angola enfrentam uma dupla invisibilidade: de género, pela
estrutura patriarcal, e territorial, pela centralização editorial e académica. Essa forma de
silenciar compromete a pluralidade do cânone da Literatura angolana, enquanto campo
institucional de legitimação, e obscurece a diversidade das produções literárias existentes
no país. Diante dessa realidade, este artigo propõe-se a responder a seguinte questão:
como a produção literária de mulheres autoras do Sul de Angola pode contribuir para a
reconfiguração de um cânone literário mais plural, inclusivo e representativo da
diversidade cultural do país?
Neste contexto, o presente estudo assume deliberadamente um corpus plural, que integra
tanto autoras já consagradas no espaço literário angolano — como Ana Paula Tavares,
Alda Lara e Deolinda Rodrigues — quanto vozes femininas cuja produção circula fora
dos circuitos editoriais hegemónicos, designadamente por via da oralidade e de práticas
comunitárias, como é o caso de Lourença Francisco e Mariana Tchilumbo. Esta opção
decorre de uma posição teórica que reconhece a oralidade como forma de criação literária
de matriz oral, integrante do campo da Literatura, ainda que historicamente marginalizada
pelos seus critérios institucionais de consagração e como espaço fundamental de
construção de memória, identidade e resistência no Sul de Angola.
O objectivo geral do estudo consiste em analisar como essas autoras elaboram uma
estética de resistência, memória e pertença que desafia as lógicas excludentes do cânone
angolano. Especificamente, busca-se: investigar as dinâmicas históricas e culturais que
levaram à marginalização dessas vozes; analisar como território, oralidade e
ancestralidade são articulados em suas produções e reflectir sobre caminhos para um
cânone literário angolano mais plural e descentralizado. Este estudo é relevante por
contribuir para a descolonização das práticas de legitimação literária, ao valorizar
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produções simbólicas femininas oriundas das margens, promovendo justiça simbólica e
cultural.
Fundamentação teórica
Com o enfraquecimento da poética clássica e neoclássica predominante até meados do
século XVIII e baseada na ideia de um Belo universal e eterno, com regras artísticas fixas
e normas literárias imutáveis, surgiu a possibilidade de se pensar a literatura de forma
histórica. Essa mudança de paradigma, conforme afirma Compagnon (2001, p. 125),
implica o reconhecimento da literatura como um fenómeno cultural que se inscreve no
tempo e se transforma em função dos contextos históricos, sociais e culturais em que se
desenvolve.
Conforme destaca Aguiar e Silva (2002), a literatura, à semelhança de outras expressões
culturais, “é uma construção histórica, com origem, desenvolvimento e transformações
que ocorrem em permanente articulação com diversos factores históricos como a religião,
a política, a organização social e as práticas económicas” (Aguiar e Silva in Cunha, 2002,
p. 2). Essa interdependência revela que a literatura não apenas reflecte, mas também
participa activamente da produção simbólica de uma época. Importa ainda sublinhar que
os sentidos atribuídos aos fenómenos históricos e culturais não são inerentes a eles
próprios: resultam, sim, de processos interpretativos mediados pelas visões de mundo dos
sujeitos históricos, os seus interesses, valores e contextos. Como aponta Eagleton (2006),
a produção e recepção de obras literárias estão sempre atravessadas por disputas
ideológicas e enquadradas por sistemas de poder que moldam a forma como tais
manifestações são compreendidas e legitimadas.
Como salienta Aguiar e Silva (in Cunha, 2002, pp. 2-3), “os valores éticos, estéticos e
políticos não possuem uma existência objectiva ou eterna; não são verdades universais
fixas, mas sim construções humanas, produzidas por sujeitos históricos situados em
contextos específicos”. Estes valores emergem da experiência concreta dos indivíduos,
movidos tanto pela razão quanto pela vontade e pela sensibilidade, o que lhes confere
uma dimensão profundamente contingente e mutável. Neste mesmo sentido, a escritora
angolana Ana Paula Tavares evidencia, através da sua escrita, que:
A memória colectiva e os valores culturais não são estáticos, mas resultam de um
processo contínuo de reconstrução muitas vezes atravessado por conflitos,
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silenciamentos e resistências operado pelas vozes que a história tentou calar,
sobretudo as femininas. Assim, tanto a teoria quanto à criação literária, reafirmam
que os valores não se impõem de fora, mas são forjados nas tramas do tempo e da
experiência. (Tavares, 2004, pp. 21-25).
Neste sentido, revela-se pertinente a reflexão de Wieser, ao afirmar que “narrar a história
consiste em condensar os acontecimentos que assumem maior relevância para
determinada comunidade” (Wieser in Francavilla, Mata & Tocco, 2022, p. 139, tradução
nossa). Tal concepção levanta duas questões fundamentais: quais eventos, dentro da
vastidão da experiência humana, são considerados dignos de destaque? E quem possui
autoridade para definir o que deve ser recordado ou, ao contrário, esquecido? A partir
destas perguntas, compreende-se que a “escrita da história implica, inevitavelmente, um
processo de selecção ou seja, é uma prática marcada por escolhas, omissões e disputas de
memória” (idem).
Esta afirmação é válida para a historiografia em geral, mas de forma ainda mais específica
para a história da literatura, seja ela relativa ao conjunto da literatura universal, seja às
diferentes tradições literárias de cada nação.
Entre o silêncio e o apagamento: exclusões históricas e geográficas das mulheres na
literatura angolana
A história da literatura angolana tal como a de muitos outros espaços pós-coloniais tem
sido construída sob o peso de critérios selectivos, frequentemente orientados por uma
lógica excludente que privilegia vozes masculinas, urbanas e ligadas aos centros editoriais
do país. O resultado é um duplo apagamento: de um lado, o silêncio imposto às mulheres
enquanto agentes criativas e produtoras de conhecimento simbólico; de outro, a
marginalização das regiões periféricas como territórios legítimos de enunciação literária.
Esta realidade adquire contornos particularmente evidentes no caso das mulheres
escritoras do Sul de Angola, cuja presença no cânone literário nacional permanece
residual, apesar da densidade estética e cultural de suas produções.
Como afirma Ana Paula Tavares, a literatura produzida pelas mulheres angolanas carrega
“a marca da resistência e da memória. Resistência contra o silêncio imposto e memória
como resgate da palavra ancestral e do corpo invisibilizado” (Tavares, 2004, p. 87). No
entanto, esta resistência tem sido historicamente travada a partir das margens geográficas
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e simbólicas de um sistema literário nacional centralizado em Luanda e nos seus circuitos
urbanos. Esta centralização não apenas condiciona o acesso à publicação e à circulação
de obras, como também molda a própria percepção crítica sobre o que deve ou não ser
incluído na memória literária nacional.
Alda Lara, embora reconhecida no imaginário literário angolano, foi durante muito tempo
mais lembrada pela sua biografia trágica do que pela complexidade temática e estética
dos poemas que compõem a sua obra poética, nos quais já se antecipa uma reflexão sobre
identidade e condição feminina. Ainda assim, a sua poesia já antecipava o desejo de
rompimento com os silêncios impostos às mulheres, como se lê no célebre poema
Presença “Quero ser eu,/ mesmo sabendo que é difícil,/ mesmo sabendo que é duro,/
mesmo sabendo que é raro.” (Lara, s.d.).
Esse desejo de afirmação enfrenta, no entanto, obstáculos estruturais profundos. A
escritora são-tomense Odete Semedo observa que “a mulher africana é, por vezes, a
última a falar, e quando fala é para confirmar o discurso dos outros. A sua palavra vem
da luta entre o que cala e o que quer dizer” (Semedo, 2023, p. 11). No Sul de Angola, este
conflito entre silêncio e palavra é ainda mais intenso, devido à ausência de políticas
culturais de valorização da produção literária local, à precariedade das editoras regionais
e à falta de incentivos à escrita e à formação crítica fora do eixo Luanda-Huambo-
Benguela.
Essa dinâmica de exclusão articula-se directamente com o legado colonial e patriarcal
que estruturou o acesso à educação formal, à autoria e à memória pública. Paulina
Chiziane, primeira romancista moçambicana, alerta para a necessidade de descentralizar
o olhar crítico e reconhecer as desigualdades profundas que marcam o campo literário
africano. Chiziane (2002) afirma que “O problema da mulher africana não está apenas no
facto de não escrever, mas no facto de não ser lida, ou, quando lida, não ser considerada
autora de saber válido.” (Chiziane, 2002, p. 34).
O caso das autoras oriundas da Huíla, do Namibe e do Cunene ilustra bem este problema.
Escritoras como Lourença Francisco, Mariana Tchilumbo e Maria Ndaliclassi ainda
publicam, maioritariamente, em pequenos circuitos locais ou por via da oralidade, com
acesso limitado a meios de divulgação nacional. As suas obras são frequentemente
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enquadradas como produções etnográficas ou regionais, sendo deslocadas para zonas
marginais do campo literário, próximas do que a crítica designa como paraliteratura, não
por ausência de literariedade, mas por critérios institucionais de consagração.
Essa hierarquização territorial do valor literário, baseada numa falsa universalidade
urbana e masculina, revela uma estrutura de exclusão que precisa de ser problematizada.
Como explica a crítica feminista Carole Boyce Davies, “as vozes das mulheres negras nas
periferias do sistema literário não são apenas silenciadas, elas são apagadas por um
processo activo de invisibilização que passa por instituições culturais, académicas e
editoriais” (Davies, 1994, p. 6).
Portanto, pensar a literatura produzida por mulheres no Sul de Angola implica valorizar
essas vozes como legítimas agentes estéticas e reconhecer que há um projecto político no
silenciamento que sofreram e há um gesto emancipador no acto de escrever a partir das
margens. Este gesto é, como diz Ana Paula Tavares, “uma insubmissão que começa nas
palavras e se prolonga nos corpos, nas memórias e nas geografias que recusam o
esquecimento” (Tavares, 2010, p. 74).
Geopoéticas da resistência: o Sul como território simbólico e cultural da escrita
feminina
No âmbito deste estudo, o “Sul” de Angola - designadamente as províncias da Huíla,
Namibe e Cunene - não se limita a uma categoria geográfica: configura-se também como
espaço simbólico, cultural e poético. Este território emerge nas vozes femininas como
uma geopoética da resistência, na qual memória, oralidade, corpo e paisagem dialogam,
criando modos de escrita que desafiam tanto o apagamento histórico quanto a
centralização cultural.
A produção literária feminina do Sul não se desenvolve nos grandes centros editoriais
nem se submete às lógicas mercantis da literatura de consumo. Pelo contrário, brota da
terra, das memórias das matriarcas, dos rituais comunitários e das palavras trocadas entre
mulheres e mães, avós, curandeiras, professoras. Este “Sul simbólico” representa uma
cartografia da resistência, onde a escrita emerge como gesto de afirmação cultural diante
de múltiplas formas de fazer com que as mulheres permaneçam em silêncio estrutural.
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A obra de Ana Paula Tavares, natural da Huíla, exemplifica esta inscrição territorial da
escrita. Em Ritos de Passagem (1995), a autora articula corpo, espaço e memória numa
chave de resistência e pertença, como se observa nos seguintes versos: “Todas as histórias
começam com uma mulher sentada à porta, de olhos perdidos no infinito. Esperando a
hora do nascimento, ou do regresso.” A imagem da mulher no limiar da porta, construída
pelo sujeito poético, simboliza a travessia entre o mundo íntimo e o colectivo, entre
tradição e história, consolidando a memória como forma de resistência.
Deolinda Rodrigues, embora associada à região do Huambo, integra-se nesta geopoética
ao escrever nas suas cartas e diários experiências de luta e comprometimento feminino,
quando afirma, enquanto sujeito poético, que “Escrever é para mim uma forma de fazer
justiça./ Quero que o mundo saiba que não somos invisíveis./ Que também choramos,
também combatemos.” (Cartas de Deolinda, 1967).
Mesmo no exílio, a sua escrita permaneceu profundamente enraizada no território,
evocando a aldeia, os saberes da infância e os silêncios impostos às mulheres, construindo
um “Sul simbólico” como gesto de insubmissão contra o patriarcado e o colonialismo.
No Namibe, Lourença Francisco representa a centralidade da oralidade. A sua poesia
circula em rádios comunitárias e encontros culturais, articulando escuta da terra, memória
ancestral e tradição oral, como quando relata que “Minha avó me ensinou a ouvir as
pedras./ Disse que quem não ouve a terra, não aprende a ficar de pé.” (Testemunho
recolhido em oficina comunitária, 2023). Aqui, a palavra é também chão; a oralidade,
prática estética e epistemológica plena, oferece uma alternativa ao cânone urbano e
académico, afirmando pertença e continuidade cultural.
Mariana Tchilumbo, do Cunene, dá continuidade a este projecto literário feminino-
territorial. Em Ondjo ya Kulo a casa de todas nós (2022), a oralidade dos provérbios, a
força matriarcal local e a denúncia das violências normalizadas transformam o espaço
comunitário numa metáfora de resistência. Como exemplifica o eu-lírico “Aqui nesta
casa, feita de barro e silêncio, cada mulher é uma história escondida. Cada mulher é uma
porta que ainda não se abriu.” Estas representações constroem uma cosmologia feminina
do Sul, em que a escrita se torna acto ritual, político e afectivo, revelando a urgência de
repensar o conceito de Literatura nacional para além do cânone centralizado.
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Reconhecer o Sul como território simbólico da escrita feminina é, portanto, ampliar a
crítica literária angolana, incluindo as vozes periféricas, orais e comunitárias. Trata-se de
valorizar práticas literárias que articulam território, corpo e memória, contribuindo para
a construção de um cânone plural, inclusivo e coerente com a diversidade cultural do país.
Escrever para lembrar: memória, corpo e território nas vozes femininas do Sul de
Angola
A escrita de mulheres do sul de Angola, como Ana Paula Tavares, Alda Lara e Deolinda
Rodrigues, revela um gesto literário que ultrapassa a estética para se escrever como
prática de memória, resistência e construção identitária. Nesta escrita, o corpo feminino
emerge como eixo simbólico do sujeito poético constituindo-se como arquivo vivo de
experiências ancestrais, enquanto a paisagem do sul – marcada por exílios, guerras e
ancestralidade – é elevada á condição de território simbólico da memória e da resiliência.
Ao narrar a dor, a ausência e a maternidade, estas autoras não escrevem apenas a partir
do trauma ou da exclusão, mas a partir da potência de lembrar, de reconstituir o que a
violência colonial e patriarcal tentou apagar. Como afirma Ana Paula Tavares (2001),
“escrever é escavar o chão onde repousam os ossos dos esquecidos, e deles fazer voz,
rumor, caminho” (p. 45). Esta escavação é tanto geográfica quanto corporal: a memória
sedimenta-se no corpo feminino como herança vivida e transmitida entre gerações. A
figura da mãe, das avós e das parteiras está presente nos poemas e cartas destas autoras
como guardiãs do saber, da resistência comunitária e da oralidade, que se mantém como
fonte legítima de conhecimento e identidade.
Em Deolinda Rodrigues, a escrita epistolar assume um lugar privilegiado na luta contra
o apagamento. Os seus diários e cartas não apenas testemunham a militância política e a
repressão, mas revelam uma subjectividade feminina engajada na transformação social.
A autora, severamente silenciada pela violência do regime colonial, deixa em sua
correspondência um legado literário que “une a intimidade ao gesto político, o amor à
pátria ao amor entre mulheres” (Rodrigues, 2003, p. 22). Nesses textos, o corpo feminino
torna-se o próprio território da guerra e da esperança, lugar de luto e de luta, inscrevendo-
se como arquivo contra o esquecimento.
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Alda Lara, por sua vez, constrói, nos poemas que compõem a sua obra poética, um
discurso de amor à terra e às mulheres negras, vítimas de múltiplas camadas de exclusão.
Em poemas como Prelúdio, a poeta evoca o sofrimento das mulheres africanas como “um
fado antigo que canta nas pedras dos caminhos” (Lara, s.d., p. 19). A sua poesia é marcada
por um lirismo que revela a complexidade de ser mulher, negra e intelectual num tempo
em que o discurso literário era hegemonicamente masculino e colonial.
Nestas três autoras, a escrita é, simultaneamente, gesto íntimo e político. A memória não
é um exercício nostálgico, mas uma prática de resistência. O corpo, longe de ser apenas
objecto de opressão, é elevado a instrumento de transmissão histórica. E o território do
Sul, o mato, o planalto, emerge como espaço de sentido, de sacralidade e de pertença.
Escrever, neste contexto, é um acto de reinscrição: é devolver nome às mulheres que
foram caladas, devolver voz às paisagens que se queriam esquecidas, e devolver corpo à
história fragmentada de Angola.
Como sublinha Mbembe (2011), “a memória dos vencidos, quando encontra meios de
expressão, transforma-se num contradiscurso poderoso e criativo” (p. 89). As vozes
femininas do Sul de Angola cumprem exactamente essa função: desafiam o apagamento
e forjam, através da linguagem, novas formas de habitar a história. É neste sentido que a
literatura destas mulheres se afirma como campo de disputa simbólica e como
possibilidade de reescrever o presente a partir das margens.
Ao integrar maternidade, exílio, ancestralidade e resistência num mesmo gesto poético e
político, Ana Paula Tavares, Alda Lara e Deolinda Rodrigues inscrevem-se como figuras
centrais de uma geopoética da memória e da libertação. Os seus textos oferecem, assim,
um alicerce potente para o reconhecimento de um cânone plural e inclusivo, que acolha
o Sul não apenas como geografia, mas como território da palavra e da justiça simbólica.
Para um cânone literário plural: repensar a inclusão e o valor das vozes
periféricasSegundo Terry Eagleton (2006, p. 201), cânone corresponde a “uma selecção
de obras que, por motivos históricos, ideológicos e estéticos, foi considerada digna de ser
preservada, estudada e transmitida como representativa da herança literária de uma
cultura.” A definição de Terry Eagleton (2006) ajuda a compreender que no, entanto, essa
selecção está longe de ser neutra ou objectiva. A construção de um cânone literário é,
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antes de tudo, uma operação de poder: ela estabelece hierarquias simbólicas, legitima
certas vozes em detrimento de outras e define o que deve ou não ser lido, estudado e
transmitido como herança cultural. No caso angolano, observa-se que o cânone tem sido
historicamente estruturado a partir de critérios que favorecem a produção masculina,
urbana e centrada nos grandes centros políticos e editoriais, como Luanda. Esta
centralidade editorial e geográfica acaba por silenciar outras territorialidades e
subjectividades, especialmente as vozes femininas oriundas do Sul do país, cujas
produções literárias continuam, em grande parte, marginalizadas ou invisibilizadas nos
discursos críticos e nas histórias oficiais da literatura.
Reescrever este cânone é, portanto, uma tarefa urgente, que requer o reconhecimento das
exclusões históricas e uma proposta de cartografia literária alternativa — que seja
simultaneamente feminista e regional, capaz de incorporar as vozes que a história literária
hegemónica relegou às margens. Esta proposta implica não apenas ampliar o corpus de
leitura, mas também alterar os critérios de legitimação literária, questionando as normas
que definem o que é “literário” e quem tem o direito de ocupar esse lugar.
Assim, Ana Paula Tavares, Alda Lara e Deolinda Rodrigues são nomes incontornáveis
neste processo. A obra de Tavares, por exemplo, é marcada por uma atenção sensível à
ancestralidade, à oralidade e à relação com o território sul-angolano. Em Manual para
amantes desesperados (2007), a autora, enquanto sujeito poético, recupera memórias
femininas e histórias silenciadas por uma historiografia que naturalizou a ausência das
mulheres africanas. Ao afirmar “Sou do sul do mundo e do ventre da minha avó, onde as
palavras se faziam nas pedras que serviam de pilão” (Tavares, 2007, p. 14), escreve ela,
fazendo da poesia uma forma de geopolítica da memória.
Por outro lado, Deolinda Rodrigues, nas suas cartas e diários, reconfigura a escrita íntima
como ferramenta de combate político. A autora documenta a violência do exílio, o
sofrimento do corpo feminino aprisionado e a luta por um país livre, mostrando como a
escrita é, também, um acto de resistência (Rodrigues, 2003). Já Alda Lara, nos seus
poemas, constrói uma voz feminina negra como configuração do eu-lírico, marcada
simultaneamente pela ternura e pela insurgência. A sua obra recupera a mulher negra
como sujeito de desejo, de saber e de história — contra a lógica patriarcal e colonial que
a reduziu ao silêncio.
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Reescrever o cânone angolano exige, ainda, a inclusão de vozes emergentes que, mesmo
fora dos circuitos editoriais tradicionais, têm contribuído para uma literatura
profundamente enraizada nas realidades do Sul do país. Autoras como Mariana
Tchilumbo, Lourença Francisco e Maria Ndaliclassi, ainda que pouco reconhecidas
institucionalmente, já constroem uma poética do quotidiano rural, da sabedoria
matriarcal, dos conflitos sociopolíticos e das estratégias de sobrevivência simbólica.
Muitas vezes oralizadas ou publicadas por vias alternativas, essas produções devem ser
compreendidas como parte de um cânone ampliado, que reconhece o valor estético e
político das literaturas periféricas.
A proposta de uma cartografia literária feminista e regional exige uma transformação nos
próprios mecanismos de consagração e difusão. Instituições académicas, políticas
públicas, currículos escolares e editoras devem comprometer-se com a valorização dessas
vozes, promovendo residências literárias no interior, prémios regionais, feiras do livro
descentralizadas e a publicação em línguas nacionais. Como aponta Hooks (1994), a
descolonização do pensamento passa necessariamente pela escuta atenta das margens e
pelo reconhecimento da experiência situada como fonte legítima de conhecimento.
Pode-se aduzir que um dos benefícios de um cânone literário plural prende-se com o facto
de o mesmo permitir que haja uma variedade de opções por parte do leitor e permita obter-
se uma cosmovisão ou experiências, garantindo a desconstrução de estereótipos, uma vez
que permitirá a inclusão de obras de autores e autoras de diferentes origens ou localidades,
mitigando assim a despromoção da justiça social (dando oportunidade às vozes
marginalizadas, como as das mulheres do Sul de Angola, por exemplo).
Maiquel afirma que:
A teoria da literatura não pode mais ser pensada no singular. Ao invés disso, há
uma pulverização de diversas teorias, entre as quais soa como anacrônica a ideia
de uma objetividade estrita capaz de elencar um rol de obras indispensáveis pela
sua indiscutível qualidade estética. Mais do que nunca, hoje tudo se discute.
(Maiquel, 2016, p. 2).
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Portanto, é evidente a preocupação de estudiosos na transformação de um cânone singular
para um plural, pois acredita-se que é a forma ideal para quebrar vantagens e assimetrias
na literatura, com destaque para a nossa própria literatura.
Metodologia
A pesquisa adopta uma abordagem qualitativa, de natureza descritiva e interpretativa,
centrada na análise crítica das obras de autoras do Sul de Angola, como Ana Paula
Tavares, Alda Lara, Deolinda Rodrigues, Lourença Francisco e Mariana Tchilumbo.
Foram analisados textos nos géneros de poesia, prosa, epistolografia e oralidade, a partir
de uma leitura hermenêutica focada em temas como memória, corpo e território.
Importa sublinhar que a inclusão de textos orais, testemunhos comunitários e produções
de circulação local obedece a uma perspectiva crítica que problematiza os critérios
tradicionais de legitimação literária. Ao integrar a oralidade no corpus de análise, o estudo
alinha-se com abordagens descoloniais e feministas que contestam a centralidade
exclusiva da escrita canónica e reconhecem outras formas de produção simbólica como
constitutivas da Literatura nacional. Esta escolha metodológica articula-se, assim, com o
objectivo de repensar o cânone literário angolano a partir das margens geográficas e
epistemológicas.
Além da análise documental, foi realizada uma revisão bibliográfica que inclui estudos
sobre literaturas africanas de língua portuguesa, teoria do cânone e feminismo africano,
com autores como Eagleton (2006), Hooks (1994), Mbembe (2011), Wieser (2022),
Spánková (2014) e Xavier (2017). A escolha desta metodologia justifica-se pela
necessidade de uma abordagem interdisciplinar sensível às dinâmicas culturais, históricas
e políticas que moldam a produção literária marginalizada.
Resultados e discussão
A análise das obras de autoras do Sul de Angola revelou que estas vozes literárias não
apenas resistem ao apagamento simbólico imposto pelo cânone centralizador, mas
também propõem uma redefinição radical dos critérios de legitimação literária. O
primeiro resultado significativo é a constatação de que a produção destas autoras não cabe
nas categorias tradicionais que sustentaram a historiografia literária angolana, marcada
pela centralidade urbana (Luanda) e pela predominância masculina. Pelo contrário, as
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suas produções articulam uma estética ancorada em práticas de oralidade, na memória
matriarcal e em uma relação visceral com o território, elementos sistematicamente
desvalorizados pelas lógicas de consagração vigentes.
Essas produções desafiam a concepção restritiva da literatura enquanto sistema
institucional, historicamente ancorado na escrita canónica, ampliando o entendimento do
literário para incluir práticas orais e comunitárias. Autoras como Ana Paula Tavares e
Deolinda Rodrigues evidenciam que a escrita de si, a oralidade e a recuperação de
memórias comunitárias constituem formas legítimas de produção simbólica e, portanto,
devem ser reconhecidas como expressões centrais da literatura angolana.
Outro ponto crítico identificado é a emergência de uma “geopoética da resistência”, onde
o Sul de Angola é ressignificado como território simbólico de produção literária, e não
apenas como espaço geográfico marginal. Esta perspectiva rompe com a falsa
universalidade urbana que domina o cânone e revela como os saberes e práticas locais
são, de facto, fontes epistemológicas fundamentais para a construção de uma Literatura
nacional inclusiva. As vozes femininas do Sul não reivindicam apenas espaço de fala,
mas colocam em xeque os próprios fundamentos sobre os quais o cânone angolano foi
erguido.
No campo teórico, este estudo evidencia a necessidade de repensar o cânone literário
angolano através de uma lente interseccional, que contemple simultaneamente as
dimensões de género, território e herança colonial. A discussão aqui ultrapassa a mera
inclusão de autoras “esquecidas” e propõe uma transformação nos paradigmas críticos: é
imperativo reavaliar os critérios de valor literário, deslocando o eixo de legitimação para
práticas culturais historicamente silenciadas.
Além disso, constata-se que a resistência simbólica presente nos textos analisados não se
dá somente no nível temático, mas também na escolha de formas expressivas que
tencionam a rigidez formal do cânone. Os poemas que dialogam com a oralidade, a escrita
epistolar como espaço político e a dramaturgia comunitária são estratégias estéticas que,
ao serem marginalizadas pelos circuitos tradicionais, expõem a selectividade dos
processos de consagração.
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Portanto, a discussão aponta para a urgência de uma reconfiguração do campo literário
angolano que vá além da simples ampliação do corpus de leitura. Trata-se de uma
proposta de “cânone insurgente”, que implica não apenas reconhecer novas vozes, mas
transformar as estruturas de poder que historicamente determinaram o que é ou não
literatura em Angola.
Conclusão
O presente estudo teve como objectivo analisar de que modo a produção literária de
mulheres autoras do Sul de Angola contribui para a reconfiguração de um cânone literário
angolano mais plural, inclusivo e representativo. A análise desenvolvida ao longo do
artigo demonstrou que esse objectivo foi alcançado, ao evidenciar práticas literárias
sistematicamente marginalizadas pela historiografia dominante, mas centrais para a
compreensão da diversidade cultural do país.
Os resultados revelaram que as obras de autoras como Ana Paula Tavares, Alda Lara e
Deolinda Rodrigues, assim como de vozes de circulação local, articulam memória,
território, oralidade e resistência como elementos estruturantes da escrita feminina. Esses
achados respondem directamente à problemática da investigação, ao demonstrar que a
exclusão das mulheres do Sul de Angola do cânone não decorre de limitações estéticas
ou simbólicas, mas de critérios de legitimação historicamente centralizadores, urbanos e
patriarcais.
Neste sentido, os resultados confirmam a hipótese de que a literatura produzida a partir
das margens geográficas e epistemológicas possui um papel decisivo na ampliação do
campo literário nacional, ao questionar os próprios fundamentos sobre os quais o cânone
angolano foi construído. A emergência de uma geopoética da resistência, ancorada no Sul
de Angola, reforça a literatura como prática cultural situada e politicamente implicada.
Entre as principais contribuições científicas do estudo destaca-se a adopção de uma
abordagem interseccional que articula género, território e descolonização do cânone. Ao
reconhecer a oralidade, a escrita epistolar e as produções comunitárias como formas
legítimas de criação literária, o artigo propõe um alargamento teórico e metodológico dos
critérios de análise e consagração literária.
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Reconhecem-se, contudo, algumas limitações, nomeadamente o recorte do corpus e as
dificuldades de acesso a produções orais sistematizadas, o que não compromete a
consistência analítica dos resultados. No plano das implicações, o estudo pode contribuir
para a revisão de currículos, políticas culturais descentralizadas e práticas editoriais mais
inclusivas.
Para investigações futuras, sugere-se o aprofundamento de estudos sobre literaturas orais
femininas e análises comparativas entre regiões angolanas. Em síntese, o artigo reafirma
que a construção de um cânone literário justo exige a integração das vozes femininas do
Sul de Angola como parte constitutiva da Literatura nacional.
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Recebido: 2025-08-08
Aceite: 2026-01-21