local, em equilíbrio ou mesmo em contraponto com o pensamento ocidental, garantindo,
assim, uma formação crítica, situada e culturalmente relevante.
Injustiça testemunhal: problemas e perspectivas do fundamento utilitarista
Um dos principais problemas associados à injustiça testemunhal é o preconceito em
relação à origem cultural e à natureza oral do conhecimento africano e, em particular,
angolano. A tradição oral, com frequência, é desvalorizada em comparação à literatura
escrita, o que reduz a credibilidade atribuída aos saberes comunitários. Entretanto, essa
desvalorização decorre de uma concepção reducionista de conhecimento, pois, conforme
defende o filósofo húngaro-britânico Michael Polanyi (2010), o conhecimento humano
não se restringe ao saber explícito, proposicional ou verbalizado. Existe uma dimensão
tácita do conhecimento, não verbal, implícita, profundamente enraizada na experiência
vivida, que também é válida e eficaz. No contexto angolano, grande parte do saber
produzido por filósofos-sábios e cientistas tradicionais é tácito, ou seja, não formalizado,
mas altamente funcional e prático. Diante disso, pode-se levantar a seguinte questão: “Se
se trata de um conhecimento não formalizado, que critérios seriam utilizados para
selecção de uma filosofia angolana que seja representativa e válida (no sentido de
utilidade)?” Ora, é uma questão que pode ser respondida com base ao postulado da
filósofa e historiadora alemã, especialista em filosofia africana Anke Graness (2015),
segundo a qual a história da filosofia demonstra que esta área não é apenas uma disciplina
académica, mas também é uma actividade em si. Todavia, as abordagens para sistematizar
a filosofia africana subsaariana dividem-se em três critérios: cronológico, principais áreas
linguísticas coloniais e as seis tendências na filosofia africana contemporânea. O último
tipo de abordagem para sistematizar a filosofia africana pode determinar o critério para
selecção de uma filosofia angolana que seja representativa e válida (no sentido de
utilidade) na medida em que inclui todas as correntes da filosofia africana que são:
filosofia profissional, etnofilosofia, filosofia nacional-ideológica, filosofia dos sábios,
filosofia hermenêutica e filosofia literária/artística. Por outra, os obstáculos que podem
inviabilizar a efectivação deste critério são: o impacto da escravidão, do colonialismo e
do racismo, bem como os argumentos científicos relativos à inferioridade intelectual do
africano. Daí que, para enfrentar essa limitação, o filósofo nigeriano Chris Akpan (2005)
propõe a integração dos filósofos-sábios e dos cientistas tradicionais nas salas de aula
formais, com o intuito de valorizar os seus conhecimentos e promover a sua transmissão
intergeracional. Esta medida contribuiria para maximizar a credibilidade atribuída às