MUPANDA Revista Científica Multidisciplinar: V.1, N.1, p.145-167, 2026
Página | 145
-/
Religião e identidade ou turismo na festividade da Nossa Senhora do Monte
Religion and identity or tourism in the festival of Our Lady of the Mount
Religión e identidad o turismo en la festividad de Nuestra Señora del Monte
Antunes Rafael Kaiumba Pinto
1
Instituto Superior de Ciências da Educação da Huíla,Angola
antunespinto@ua.pt
Inara Fernanda Tavares da Cruz
2
Instituto Superior de Ciências da Educação da Huíla,Angola
inara.cruz@isced-huila.edu.ao
Resumo
O presente artigo, que tem como tema “religião e identidade ou turismo na festividade
da Nossa Senhora do Monte do Lubango”, objectiva analisar a relação entre fé e
festividades religiosas, buscando compreender de que modo os participantes vivenciam a
interligação entre crença e turismo durante este evento. Para fundamentar a investigação,
recorremos a conceitos-chave como turismo religioso, identidade, crença, festividades e
religiosidade local, que se configuram como elementos centrais para a compreensão do
fenómeno. O estudo apoia-se num paradigma de investigação misto, envolvendo
participantes residentes no município onde se realizam as festividades. Os dados foram
recolhidos por meio de inquérito por questionário online (google forms, Lubango, 2025),
contendo perguntas abertas e fechadas, o que permitiu articular uma análise quantitativa
e qualitativa. Os resultados apontam que a festividade desempenha um papel relevante na
construção da identidade local, promovendo assim um turismo religioso e cultural e
configurando-se como um fenómeno regional.
Palavras-chave: Turismo religioso; Identidade local; Festividade.
Abstract
This article, which has the theme “religion and identity or tourism in the feast of Our
Lady of Monte do Lubango” aims to analyze the relationship between faith and religious
festivities, seeking to understand how participants experience the interplay between belief
and tourism during this event. To support the research, we draw on key concepts such as
religious tourism, identity, belief, festivities, and local religiosity, which are central
elements for understanding the phenomenon. The study is based on a mixed research
paradigma, involving participants who resid in the municipality where the festivities take
1
Doutor em Estudos Culturais, Professor Assistente e Chefe da Secção de Ensino de História no ISCED-Huíla,
Angola.
2
Doutoranda em Educação, Mestre em Desenvolvimento Curricular e Docente no ISCED-Huíla, Angola.
MUPANDA Revista Científica Multidisciplinar: V.1, N.1, p.145-167, 2026
Página | 146
place. The data werw collected through an online survey questionnaire (Google forms,
Lubango, 2025), containing both open and closed questions, which allowed for the
combination of quantitative and qualitative analysis. The results indicate that the festival
plays a significant role in the construction of local identity, thus promotin religious and
cultural tourism, and establishing itself as a regional phenomenon.
Keywords: Religious tourism, Local identity, Festivity.
Resumen
Bajo el título “Religión e identidad o turismo en la festividad de Nuestra Señora del Monte
de Lubango”, este artículo analiza la compleja relación entre la fe y las celebraciones
religiosas, explorando cómo los participantes experimentan la interconexión entre la
creencia y el turismo. Para fundamentar el estudio, se recurre a conceptos clave como
identidad, religiosidad local y turismo religioso, elementos esenciales para comprender la
magnitud de este evento. La investigación adopta un paradigma mixto, centrándose en las
percepciones de los residentes del municipio donde se desarrolla la festividad. La
recolección de datos se llevó a cabo en 2025 mediante una encuesta digital que integró
preguntas abiertas y cerradas, permitiendo una articulación profunda entre los análisis
cuantitativo y cualitativo. Los resultados revelan que la festividad trasciende lo puramente
espiritual para desempeñar un papel determinante en la construcción de la identidad local.
Se concluye que el evento se consolida como un fenómeno regional de gran relevancia,
capaz de dinamizar un turismo religioso y cultural que fortalece el sentido de pertenencia
y el desarrollo de la comunidad huilense.
Palabras clave: Turismo religioso, Identidad local, Festividad.
Introdução
Este estudo sobre a festividade de Nossa Senhora do Monte, no Lubango, insere-se na
confluência entre religião, identidade cultural e turismo religioso. A religião, entendida
enquanto fenómeno social, desempenha um papel estruturante na construção de
identidades e na organização simbólica das comunidades (Durkheim, 2004). Em Angola,
as festividades religiosas configuram-se como momentos de expressão da fé, mas também
como práticas culturais que influenciam a dinâmica económica e social. Neste contexto,
a investigação busca compreender de que modo os fiéis e participantes vivenciam a
relação entre a crença religiosa e o turismo, analisando como as práticas devocionais se
articulam com fluxos turísticos e com a afirmação das identidades.
MUPANDA Revista Científica Multidisciplinar: V.1, N.1, p.145-167, 2026
Página | 147
Enquadramento Teórico
O turismo como actividade moderna nasceu na primeira metade do século XIX, mas, em
seus traços fundamentais, podemos encontrá-lo desde a Antiga Grécia, passando pelo
domínio romano, bem como durante a Idade Média (Pinto & Baptista, 2020, p. 7).
Conforme frisamos, o turismo caracteriza-se como uma actividade que existe desde os
tempos modernos e envolve um conjunto de acções muito vastas, sendo influenciado ou
motivado por desejos e representações. Enquanto uma das actividades que mais cresce,
entre os finais do século XX e início do século XXI, é modificadora dos espaços,
sobretudo os urbanos e pode ser classificado de diversas formas, ou seja, agrupa-se em
múltiplas formas em função ao objecto de estudo. No caso concreto, vamos aborda-lo
apenas do ponto de vista cultural e religioso, turismo católico, deixando as outras
dimensões de análise para futuros estudos ou investigadores (Brambilla & Baptista, 2015)
Turismo: Entre Conceitos e Abordagens Teóricas
Para Maia (2010, p.16), o turismo cultural é um movimento onde os visitantes percorrem
atracções culturais específicas, como museus, exposições artísticas e culturais, artes e
teatro fora do seu local de residência. Vários autores debruçaram-se sobre o conceito de
turismo cultural, pelo que, para o presente estudo, iniciámos com a perspectiva de
Richards (2000), que define turismo cultural como um movimento de pessoas para
atracções culturais longe do seu local de residência, com a intenção de reunir novas
informações e experiências para satisfazer as suas necessidades culturais. Assim, o
turismo cultural é um fenómeno marcado pela movimentação e motivação dos indivíduos
em visitar atracções culturais, como monumentos e museus, e têm o intuito de reunir
novas experiências que possam satisfazer as necessidades culturais.
Alinhados neste prisma, admitindo que, para a visão de Silveira (2019), o turismo é uma
actividade complexa que não deve ser reduzida exclusivamente à prática comercial ou
industrial, marketing ou gestão de produtos. Facilmente se percebe que o turismo deve
ser considerado não apenas como um tipo de negócio, mas como um poderoso cenário
cultural, moldado por representações de lugares, povos, nações e culturas (Alves De
Almeida & Baptista, n.d.).
Note-se ainda que, na acepção de Costa (2021), o turismo é uma combinação complexa
de inter-relacionamentos, mas cuja composição se integra numa prática social com base
MUPANDA Revista Científica Multidisciplinar: V.1, N.1, p.145-167, 2026
Página | 148
cultural, herança histórica, paisagem natural, relações sociais e intercâmbio de
informações interculturais. Como uma prática social, envolve o corte com rotinas
estabelecidas, representando assim uma ruptura no quotidiano cujo propósito é
experimentar algo extraordinário (Carvalho, 2020; Henriques, 2015). Ademais, o turismo
pode ser entendido como um fenómeno social multidimensional, no qual o espaço
turístico é, respectivamente, “actor e palco das relações sociais, susceptíveis às mutações
das experiências históricas e da própria dinâmica da paisagem” (Pinto & Baptista, 2020,
p. 5). Algumas vezes, as comunidades visitadas transformam-se em palcos de
“encenações” com o único objectivo de satisfazer as representações imaginárias que os
visitantes carregam na bagagem (Abreu, 2014; Bourdeu, 2021). Além dos diferentes
papéis desempenhados pelos autores envolvidos, também existe uma diferença cultural
que, supostamente, seria catalisadora desta experiência prodigiosa (Silveira, 2019).
Turismo Religioso
Se, por um lado, o turismo cultural representa um sector enriquecedor para quem o
pratica, por outro lado, o turismo religioso é, assim, caracterizado por uma ligação íntima
entre o fenómeno turístico e o fenómeno religioso (Henderson, 2001).
No contexto actual, falar sobre a religião é penetrar num campo que envolve um conjunto
de narrativas e descrições, em que muitas vezes são salutares mas noutras não, e as razões
são diversas, considerando que, de acordo com André (2012), “a religião tornou-se um
resultado de outras tantas formas de dominação, aculturação e colonização que se
repetem, por outros meios mais sofisticados” ( p. 48). Ao escavarmos arqueologicamente
a questão do turismo religioso, fomos convocados a percorrer as suas origens, que nos
remetem a um encontro desde as mais antigas manifestações religiosas tanto cristãs
quanto não-cristãs. Para os cristãos, no movimento das Cruzadas, constavam as práticas
como peregrinações ao túmulo de Cristo e de mais autoridades religiosas e, nesta ordem
de ideia, foi-se realizando um conjunto de movimentações para diversos lugares, com
finalidade dupla: religiosa e turística. Na visão de Pernas ( 2022, p.22), “as peregrinações
eram feitas nas mais duras condições, num espírito de sacrifício e purificação”.
No caso do turismo religioso, constitui-se num importante segmento que envolve dois
dos mais importantes fenómenos sociais do mundo contemporâneo (Martins & Silva,
2021). As descrições sobre as articulações entre o turismo e a religião são tão antigas que
contam, desde o segundo milénio, a esperança do retorno de Cristo a Jerusalém e ainda
MUPANDA Revista Científica Multidisciplinar: V.1, N.1, p.145-167, 2026
Página | 149
reforçavam, no espírito de muita gente, o desejo de alcançar a salvação. Jerusalém,
historicamente, é considerada uma cidade santa, tanto para os judeus quanto para os
muçulmanos e para os cristãos. Estas viagens acabavam por ser um destino de
peregrinações e orações para os principais grupos religiosos da região do seu entorno:
para os cristãos, o símbolo é o Santo Sepulcro; para os judeus, o Muro das Lamentações;
e para os muçulmanos, a Esplanada das Mesquitas.
É importante realçar que muitos outros lugares são marcados por devoções oficiais,
populares, religiosas e é nesta lógica que a Nossa Senhora do Monte não se apartou de
ser um lugar diferente desta actividade, ou seja, também é visto pelos seus fiéis como
sendo um núcleo de consagração da fé e importante lugar de manifestação cultural.
Aludindo-nos, concretamente, à Capelinha da Nossa Senhora do Monte que, aos poucos,
se tornou num lugar de santidade e peregrinação para os residentes católicos, era vista
como uma Meca (expressão pertencente à cultura religiosa do islão), ou até mesmo como
Jerusalém ou muitos outros lugares cuja relevância histórica e religiosa é indiscutível, por
estarem marcados por devoções oficiais ou populares de religiões, sendo núcleos
receptores importantes em termos de fé e, consequentemente, em termos de turismo, cujas
dimensões superam as manifestações de fé e as próprias motivações religiosas.
Com efeito, o acto de peregrinar, além de ser um testemunho de devoção, é
simultaneamente uma deslocação, o que permite o seu enquadramento no turismo
religioso. Pernas (2022), adopta a terminologia de «romeiros-turistas», que permite
distinguir dos peregrinos tradicionais. A sua presença no santuário justifica-se por razões
que transcendem aquelas que mobilizariam os romeiros tradicionais (Pernas, 2022, p. 23).
Assumindo que o sentido real das deslocações aos santuários confronta o paradigma
tradicional das peregrinações, cujo padrão tem vindo a ser alterado, seja pela crescente
oferta de serviços, os quais facilitam a combinação entre peregrinação e património, seja
pela alteração do conceito espiritual e religioso das peregrinações (Silva, 2000, p. 11), é
razoável reflectir que as viagens nacionais e internacionais, motivadas pela fé religiosa,
vêm-se consolidando como um segmento do mercado turístico, correspondendo ao
turismo religioso. Podemos considerar que a Jornada Mundial da Juventude (JMJ), criada,
em 1985, pelo Papa João Paulo II, se consolidou como um dos maiores eventos de turismo
MUPANDA Revista Científica Multidisciplinar: V.1, N.1, p.145-167, 2026
Página | 150
religioso internacional no qual participam maioritariamente populações católicas (e
também de outras religiões) de vários países do mundo (Maia, 2010).
A Problemática sobre a Identidade
De facto, tem sido notável que a questão da identidade está a ser extensamente discutida
na teoria social (Hall, 1992). A nossa reflexão sobre a identidade, actualmente, tem sido
heterogénea e pluricêntrica, pelo facto de existirem muitas interpretações sobre o que é
percebido como identidade e o certo é que, para cada época e contextos, foram sendo
produzidas novas identidades que foram caracterizando os próprios produtores. Assim, a
reflexão que agora apresentamos pode ser percebida como uma identidade produzida em
função a uma realidade concreta, a qual é a procissão que se realiza na Nossa Senhora do
Monte no Lubango.
Enfatize-se que as identidades são produzidas dentro de uma semiesfera que se chama de
globalização, nela actuam conjuntos de factores que reproduzem as tais identidades,
sendo neste quesito que se impõe uma questão retórica. Afinal o que são as identidades?
Esta é uma daquelas perguntas que não encontram apenas uma única resposta.
Assim, no intuito de se trazer uma resposta, revisitamos um conjunto de documentação
como os escritos de Hall (1992), para quem a identidade “descreve aquelas formações
que atravessam e interceptam as fronteiras naturais, compostas por pessoas que foram
dispersadas para sempre da sua terra natal” (p. 88). Para André (2012), a identidade é o
fenómeno da sociedade-em-rede e as implicações que tem sobre a esfera cultural.
O homem, sendo um ser biopsicossocial, possui uma dimensão bipolar que atribui acções
e competências para articular questões como a fé e identidade (Abreu, 2014). Assim, a
articulação que propomos entre identidades fundamenta-se a partir da noção que implica
estabelecer o conceito de diálogo intercultural religioso entre as diversas denominações
que coabitam num mesmo espaço, criando assim uma consciência de que é na prática
plural e aprofundada dos diálogos que se constroem as identidades.
Enquadramento Histórico
Os factos, como se pode ler em Henderson (2001, p. 276), atestam que, durante o período
colonial, a Igreja, em Angola, ocupou duas posições antagónicas em relação ao Estado
MUPANDA Revista Científica Multidisciplinar: V.1, N.1, p.145-167, 2026
Página | 151
Português; a igreja Católica, por tradição e por tratados celebrados, encontra-se aliada ao
regime colonial, ao passo que as igrejas protestantes eram toleradas pelo Estado
Português, nunca tendo, contudo, recebido reconhecimento oficial.
As festas da cidade do Lubango datam desde 1902, tendo sido ao longo destes anos palco
das icónicas realizações dos munícipes, e não só, e as mesmas acontecem durante o mês
de Agosto, constituindo uma forte tradição com origens e manifestações religiosas
portuguesas, celebrada pela sociedade huilana de forma efusiva com vários atractivos,
com realce para as actividades, socioeconómicas, religiosas, culturais e desportivas (Reis,
2009). Para além do seu papel histórico, as festas de Agosto, no Lubango, são um ícone
de identidade da capital huilana, na diversidade sociocultural e económica, visando
apresentar para Angola e o mundo as potencialidades culturais, turísticas e económicas
da Huíla, no geral.
Localizada num dos topos da Serra da Chela, a Capela da Nossa Senhora do Monte é,
para além de um santuário de peregrinação religiosa que se reveste de grande simbolismo
e importância para a comunidade católica, também, um importante activo turístico e
histórico.
O processo da sua construção está estreitamente associado ao objectivo colonial em curso
na época, pois a mesma servia para consolidar a fé católica no então distrito da Huíla
entre os nativos e entre os portugueses (principalmente madeirenses), implicados no
processo colonial. (Cabecinhas & Feijó, 2013).
A sua implantação geográfica está também relacionada com um projecto inicial de
construção dos Caminhos-de-Ferro-de-Moçâmedes que, no sentido de evitar o centro da
cidade, devia circundar a cintura serrana. Foi então que as autoridades da altura decidiram
a construção de um santuário para simbolizar a Nossa Senhora (mãe de Jesus) e,
cumulativamente, para honrar as almas perdidas durante a tentativa de construção do
referido viaduto.
Perseguindo esta historiografia, a construção da capela pode ser analisada em dois
momentos, uma primeira edificação primitiva, que ainda inacabada, foi inaugurada a 15
de Agosto de 1902, com a celebração de uma missa campal, e a apadrinhar esta homília
MUPANDA Revista Científica Multidisciplinar: V.1, N.1, p.145-167, 2026
Página | 152
estava uma imagem de Nossa Senhora da Conceição, oferecida pelo senhor Venâncio
Ferreira Rodrigues que a adquiriu, na cidade portuguesa do Porto, em cumprimento a uma
promessa (Pereira, 2014). Em nome do Bispo de Angola e do Congo, o pároco local
abençoava a conclusão da obra em 14 de Agosto de 1903.
A partir desta data, a capela passou a ser local de Romaria, tornando-se tradição. Uma
década e meia depois, João Henrique de Azevedo idealizou e projectou uma capela mais
ampla com uma maior visibilidade a partir de toda a então vila de Sá da Bandeira, tendo
sido assim inaugurada, em 1921 (Rezola, 2012).
Desta forma, a única igreja aceite e, constitucionalmente, legal, à época foi a igreja
católica, tal como foi estatuído: “a religião da nação portuguesa é a católica apostólica
romana” (Assembleia da República, 1826). Ainda assim, numa outra constituição
portuguesa (República, 1822), é reforçada a ideia do poder que a igreja católica detinha
na altura, tal como se pode ler: “a religião católica apostólica romana continuará a ser a
religião do reino”; desta forma, a religião a religião católica tornou-se o credo oficial de
todo o espaço geográfico que representava o então império colonial português, com
objectivo e acção na evangelização (Matos, 2006).
Paradigma Metodológico
Para a realização desta investigação, adoptou-se uma metodologia mista, por se
considerar que apenas uma abordagem isolada (qualitativa ou quantitativa) não permitiria
compreender de forma sólida o fenómeno em estudo. A opção por este paradigma
metodológico garantiu rigor e coerência científica (Amado, 2017; Guerra, 2014; Lopes,
2011). A combinação de métodos qualitativo e quantitativo possibilitou uma análise mais
completa, permitindo a triangulação dos dados e o cruzamento de resultados. Creswell
(2007) reforça que a utilização conjunta de perguntas abertas e fechadas num mesmo
instrumento enriquece a compreensão do problema investigado.
Objectivo
O principal objectivo da investigação é de compreender as percepções dos participantes
em relação à realidade em estudo, nomeadamente no que concerne à experiência dos
munícipes peregrinos cristãos que frequentam o espaço identificado como objecto de
MUPANDA Revista Científica Multidisciplinar: V.1, N.1, p.145-167, 2026
Página | 153
análise. Pretendeu-se obter uma informação global sobre estas percepções, permitindo
construir uma visão abrangente sobre o fenómeno em análise
Participantes
A população-alvo, entenda-se como amostra (de 48 participantes), foi constituída por
munícipes peregrinos cristãos, frequentadores habituais do espaço religioso em análise.
A selecção dos participantes esteve associada à experiência religiosa e à vivência no local
em estudo, o que assegurou a pertinência das respostas obtidas.
Instrumentos
O principal instrumento de recolha de dados foi o inquérito por questionário, aplicado em
formato online. O questionário foi composto por dez questões, distribuídas entre:
• Questões fechadas (de carácter quantitativo), que possibilitaram tratamento
estatístico e análise de tendências gerais.
• Questões abertas (de carácter qualitativo), que permitiram captar percepções,
atitudes e crenças dos participantes.
O questionário estruturado foi desenvolvido segundo a perspectiva metodológica de Gil
(2002), contemplando perguntas dependentes e organizadas de forma lógica. Para além
do questionário, recorreram-se ainda a técnicas complementares de análise documental
conforme sustentam Pardal e Lopes (2011).
Segundo Tuckman (2002), questionários e entrevistas são instrumentos eficazes para
aceder a informações cognitivas (conhecimentos), afectivas (valores e preferências) e
atitudinais (crenças e opiniões), além de permitir identificar experiências passadas e
percepções actuais dos sujeitos.
Procedimentos
O processo de recolha de dados decorreu em diferentes fases:
1. Aplicação do questionário online, respondido pelos participantes, cujo objectivo
central foi recolher percepções globais sobre a realidade em estudo.
2. Análise qualitativa das respostas abertas, identificando categorias emergentes e
significados atribuídos pelos inquiridos.
MUPANDA Revista Científica Multidisciplinar: V.1, N.1, p.145-167, 2026
Página | 154
3. Análise quantitativa das respostas fechadas, possibilitando tratamento estatístico
básico e descrição de tendências.
4. Integração dos resultados qualitativos e quantitativos, assegurando
complementaridade e triangulação dos dados (Coutinho, 2016; Creswell, 2007;
Yin, 2010).
Apresentação e discussão dos resultados
À medida que os dados foram sendo recolhidos, iniciava-se, em simultâneo, a análise dos
mesmos, com base no referencial teórico, após o cruzamento das evidências recolhidas.
Dimensão 1- Religião e prática religiosa
Tipo de respostas
Nº de Frequências
%
a. Católica
26
54
b. Protestante
3
6
c. Adventista
3
6
d. IECA
6
12
e. Igreja Universal
0
00
f. Outras
10
20
Total
48
100%
Tabela nº1. Questão n.º 1: Que religião professa?
Fonte: Recolha feita pelos autores, 2025.
Os dados recolhidos referentes a esta questão enquadrada na dimensão em análise
permitem perceber que os números dão vantagem percentual à Igreja Católica. Ao ser
assim, as descrições teóricas são aqui confirmadas como sendo a igreja que detinha e
detém até aos dias de hoje o maior número de fiéis que frequentam os seus templos, nos
países colonizados por Portugal. Com isto, depreende-se que a religião cristã católica
contribuiu para o reforço da obediência, da doutrinação das populações e do seu controlo.
O que vai ao encontro do pensamento de Bhabha (1998, p. 68), segundo o qual “a análise
da despersonalização colonial não somente aliena a ideia iluminista do Homem mas
contesta também a transparência da realidade social como imagem pré-dada do
conhecimento humano (p. 68)”.
Esta hegemonia não apenas reforça a continuidade histórica da sua influência, mas
também se articula com a função ideológica que a religião desempenhou no contexto
colonial. A presença da Igreja foi central na doutrinação, obediência e controlo social
MUPANDA Revista Científica Multidisciplinar: V.1, N.1, p.145-167, 2026
Página | 155
conforme já nos referimos, funcionando como um verdadeiro aparelho ideológico do
Estado (Althusser, 1979). Neste sentido, a religião contribuiu para a construção simbólica
da nação e para a legitimação da ordem social, como observa Mineiro (2007, p. 50), ao
destacar as estreitas relações entre o Estado português e a Igreja Católica.
Caracterização Sociodemográfica dos participantes no estudo
Questão 2-– Qual é a sua idade?
Intervalo de Idade
Nº de Frequências
%
20-24
18
37
25-30
7
14
31-35
10
20
36-40
4
9
41-65
5
10
+65
4
8
Total
48
100
Tabela n.º 2; Fonte: Recolha feita pelos autores, 2025
A caracterização sociodemográfica dos participantes foi realizada a partir de intervalos
etários, organizados de forma cronológica e progressiva, o que possibilitou observar
padrões de participação mais consistentes. Os dados revelaram que a maioria dos
inquiridos se encontra na faixa etária dos 20-24 anos, perfazendo assim 37%, em seguida
temos o intervalo do grupo situado entre os 31-35 anos, com um grau percentual de 20%.
A predominância do grupo mais jovem pode ser explicada pelo facto de que os jovens
apresentam maior familiaridade com os meios digitais e ferramentas informáticas, o que
facilitou a sua adesão à pesquisa, conduzida em formato online por meio do Google
Forms. Esta constatação dialoga com Lévi-Strauss (2008), que os caracteriza como
“nativos digitais”, capazes de lidar com maior destreza com as tecnologias no quotidiano.
Entretanto, a presença expressiva de participantes entre os 36-40 anos de idade evidencia
que a prática da religiosidade continua a ser um elemento estruturante da vida quotidiana,
independentemente da geração. Conforme Reis (2009), a religião permanece central para
a identidade social, mesmo em sociedades contemporâneas, nas quais os processos de
secularização ganham relevância. Do mesmo modo, Martins (1986) entende a religião
como um “fio de memória” que se transmite intergeracionalmente, assegurando
continuidade e sentido às práticas religiosas.
MUPANDA Revista Científica Multidisciplinar: V.1, N.1, p.145-167, 2026
Página | 156
Questão 3- Já participou de alguma romaria, procissão ou peregrinação?
Nº de Frequências
%
30
62
00
00
18
38
48
100
Tabela n.º 3; Fonte: Recolha feita pelos autores, 2025
Na questão n.º 3, buscou-se compreender se os sujeitos da investigação já haviam
participado de alguma procissão em honra à Nossa Senhora do Monte. Os dados
evidenciam que 62% afirmaram ter participado, enquanto 38% declararam não saber se
realmente já participaram numa das indicações de cariz cristã, entre os quais a resposta
“talvez” foi uma constante, pois apresentaram algumas dificuldades em identificar se uma
ida ocasional, desinteressada, despropositada podia valer tanto quanto uma visita
intencional. Todavia, este resultado indica que a maioria dos inquiridos mantém uma
prática de envolvimento directo com as tradições religiosas locais, ao passo que uma parte
significativa ainda se encontra afastada destas manifestações.
A participação em procissões pode ser compreendida como expressão colectiva da fé e
da identidade religiosa. De acordo com Turner (1990), os rituais de peregrinação e
procissão são momentos privilegiados de “communitas”, nos quais os indivíduos se unem
em torno de valores partilhados, transcendendo hierarquias sociais e reforçando o sentido
de pertença. Neste contexto, o elevado número de participantes nas procissões da Nossa
Senhora do Monte confirma que estas celebrações não apenas cumprem uma função
litúrgica, também reforçam os laços sociais, a memória colectiva e a coesão cultural de
alguns munícipes.
Questão 4 – Quantas vezes ao ano participa de tais actividades?
Tipo de Resposta
Nº de Frequências
%
a. 1 vez
2
4
b. 2
3
6
c. 3
3
6
d. 4
7
14
e. 5
5
10
f. +5
28
58
Total
48
100
Tabela n.º 4; Fonte: Recolha feita pelos autores, 2025
MUPANDA Revista Científica Multidisciplinar: V.1, N.1, p.145-167, 2026
Página | 157
A questão nº 4 teve como objectivo identificar a frequência com que os participantes se
deslocavam ao local de peregrinação e compreender o significado atribuído a esta prática
em suas vidas. Os resultados revelam que 58% dos inquiridos declararam que visitavam
mais que cinco vezes durante o ano, enquanto que os 42% estão distribuídos em diferentes
alternativas, correspondendo a uma frequência superior a uma visita anual. Destaca-se,
neste grupo, a opção dos que afirmaram deslocar-se mais de cinco vezes ao ano, o que
demonstra um envolvimento religioso mais intenso, sem tornar irrelevante quem para lá
vai, ocasionalmente.
Estes dados permitem inferir que o local não representa apenas um espaço de visita
pontual, mas um lugar de referência espiritual e simbólica para muitos dos participantes.
De acordo com Alexandre (1979),
mais do que uma tendência, o turismo religioso assumiu-se, nos últimos anos,
como um dos principais motivos para viajar. Anualmente, mais de 6.000.00
pessoas tinham como destino o santuário da Nossa Senhora do Monte do Lubango
em Imagem do que existia na ilha da madeira, as viagens tinham como destino
locais associados ao património religioso (p. 467).
O Santuário da Nossa Senhora do Monte é o expoente máximo na Região Sul de Angola,
nesta vertente turística, por muitas outras razões para descobrir a religiosidade dos
lugares, através da história e do património, nomeadamente, o edificado. No actual
contexto, marcado por “novas normalidades”, o turismo espiritual e o turismo religioso
ganham força e intensidade redobradas e afirmam-se como essenciais à busca do bem-
estar, ao proporcionar momentos de introspecção e de libertação de stress. A partir destas
duas vertentes espiritual e religioso, este guia abre caminhos para quem procura tratar da
alma ou do espírito, para além do corpo.
Portanto, a frequência significativa das visitas, sobretudo entre os que retornam várias
vezes ao ano, evidencia que o local é percebido como espaço de renovação espiritual,
pertença comunitária e continuidade cultural, desempenhando um papel central na vida
dos fiéis que o frequentam.
MUPANDA Revista Científica Multidisciplinar: V.1, N.1, p.145-167, 2026
Página | 158
Dimensão 2- Percepção da Capelinha: Lugar Sagrado x Profano
Questão 5- Considera a Capelinha da Nossa Senhora do Monte como um lugar
sagrado ou profano?
Tipo de Resposta
Nº de Frequências
%
a. Sagrado. Porque…
37
77
b. Profano. Porque…
11
22
Total
48
100
Tabela n.º 5 Fonte: Recolha feita pelos autores, 2025
A maioria dos inquiridos consideram que a Capelinha da Nossa senhora do Monte é um
lugar sagrado. As justificações vão desde motivos históricos, espirituais e culturais; para
eles, o lugar é visto como um espaço de oração, intercessão, fortalecimento da fé e
consagração religiosa.
Alguns poucos indicam sinais de profanação do espaço por práticas turísticas
desvirtuadas (ex. consumo de bebidas alcoólicas ou visitas sem sentido espiritual), mas
ainda assim não deixam de reconhecer o seu valor sagrado original. Este duplo olhar
revela o conflito entre a sacralidade e a apropriação secular do espaço, uma tensão
também observada por autores como Eliade (1957), que argumenta que o sagrado não
desaparece, mas pode ser “diluído” no quotidiano profano, exigindo reinterpretações
contínuas.
Os santuários podem ser definidos como espaços centrais de religiosidade, de devoção,
seja pela ocorrência de um milagre, de uma aparição, seja pela existência de relíquias,
que acabam por se tornar lugares de encontro cultural e de peregrinos com diferentes
proveniências (Jordão, 1993).
Na visão de Martins (1986), “no catolicismo angolano, as peregrinações a locais sagrados
tornaram-se, juntamente com as festas das cidades, uma expressão privilegiada da
religiosidade do povo”. Os santuários são em si lugares onde o povo, enquanto vivencia
a sua espiritualidade, atinge uma experiência do sagrado, que toca e alimenta a sua
devoção. Neles, o sagrado revela-se e marca o devoto de uma maneira original.
MUPANDA Revista Científica Multidisciplinar: V.1, N.1, p.145-167, 2026
Página | 159
Questão 6 – Que factores influenciam a sua visita a estes lugares?
Tipo de Resposta
Nº de Frequências
%
a. Espiritualidade
32
66%
b. Curiosidade histórica
10
20%
c. Turismo e Cultura
6
14%
Total
48
100%
Tabela n.º 6; Fonte: Recolha feita pelos autores, 2025
Os dados revelam que a espiritualidade é o factor mais relevante para os inquiridos que
visitam à Capela da Nossa Senhora do Monte do Lubango, sendo apontada por 66% dos
participantes. Enquanto os demais factores surgem com outros valores percentuais
inferiores, tal como se observam na tabela acima. Estes resultados indicam que, embora
o espaço possua também uma dimensão cultural e turística, prevalece a motivação
religiosa e espiritual.
Para Bracons (2018), o turismo religioso deve ser entendido como uma experiência que
combina dimensões espirituais, culturais e sociais, ao longo do qual os fiéis podem ser
simultaneamente crentes e turistas. Assim, os dados sugerem que a Capela da Nossa
Senhora do Monte constitui um espaço híbrido, no qual se entrelaçam motivações
espirituais e motivações turísticas, reflectindo tanto a tradição religiosa como a
valorização cultural e patrimonial do local. A religião do homem, a pura e simples religião
do evangelho, o verdadeiro teísmo, numa primeira aproximação, e esta forma de religião
toda interior e aplicada à prática da perfeição moral concentram a simpatia dos espíritos
bem formados (Abreu, 2014, p. 105).
Daí que o fenómeno da peregrinação na sociedade moderna e contemporânea, neste
contexto, estabelece interfaces com o turismo religioso. O Caminho da Fé da Capela de
Nossa Senhora do Monte, por exemplo, constitui-se em um espaço social capaz de criar
e estimular um campo variado de relações religiosas, culturais, políticas e económicas
através de discursos e narrativas de agentes sociais envolvidos no fenómeno.
MUPANDA Revista Científica Multidisciplinar: V.1, N.1, p.145-167, 2026
Página | 160
Questão 7– Considera a sua visita como forma de expressão da sua fé?
Tipo de Resposta
Nº de Frequências
%
a. Sim
36
75%
b. Não
12
25%
Total
48
100%
Tabela n.º 7; Fonte: Recolha feita pelos autores, 2025.
Embora os resultados tenham sido inicialmente apresentados em termos de estatística
descritiva simples, nesta questão optou-se também por considerar as narrativas recolhidas
através de perguntas abertas, possibilitando, assim, uma análise de conteúdo mais
aprofundada. De modo geral, maior parte dos inqueridos considera que as suas visitas
àquele lugar é um acto de expressão de fé, consideração e de devoção pela fé católica que
lhes move.
Assim, indo ao encontro das respostas abertas, os trechos recortados também são
elucidativos quanto à questão de representação de fé, ou seja, basta analisar as descrições
abaixo: “uma expressão de fé”, “um momento de oração e reflexão espiritual” ou ainda
“uma forma de buscar milagres, curas e soluções para dificuldades económicas e
familiares” para chegarmos a tal percepção. Tais narrativas reforçam o entendimento da
capelinha como um espaço de esperança colectiva e individual, em que o sagrado se
manifesta na vida quotidiana dos fiéis.
Contudo, nem todos os participantes atribuem significados religiosos ao local. Alguns
descrevem a capelinha apenas como um espaço de lazer e diversão, sem valor espiritual
directo. Esta divergência de percepções remete ao pensamento de Reis (2009),que
assinala o carácter plural dos espaços religiosos, destacando que, em certos contextos, a
religiosidade pode esvaziar-se no processo de racionalização, abrindo espaço para usos
distintos do mesmo lugar.
Assim, as narrativas analisadas demonstram que a capelinha é concebida de forma
ambígua: para uns, lugar sagrado e de encontro com o divino e, para outros, simples
espaço recreativo. Tal pluralidade de percepções confirma a necessidade de compreender
o fenómeno religioso como multifacetado, respeitando as diferentes leituras e
significados atribuídos pelos sujeitos sociais (Castro, 2017).
MUPANDA Revista Científica Multidisciplinar: V.1, N.1, p.145-167, 2026
Página | 161
Dimensão 4- Turismo Religioso e Economia
Questão 8 – Será que, durante as actividades de peregrinação, são comercializados
alguns produtos?
Tipo de Resposta
Nº de Frequências
%
a. Sim
38
79%
b. Não
10
21%
Total
48
100%
Tabela n.º 8; Fonte: Recolha feita pelos autores,
2025.
Na questão analisada, 79% dos inquiridos afirmaram que durante os momentos em que
são realizadas as peregrinações, no mesmo espaço aparecem pessoas que vendem certos
objectos de uso religioso, bem como alimentos, o que faz do lugar um espaço de disputa
entre os vários sujeitos que o frequentam. Estas práticas revelam que as peregrinações
não são apenas eventos de carácter espiritual, mas também constituem oportunidades de
dinamização económica local.
A literatura aponta que o turismo religioso, ao agregar dimensões de fé e consumo,
desempenha um papel relevante no desenvolvimento económico das comunidades
anfitriãs. Do ponto de vista sociológico, a articulação entre práticas religiosas e comércio
pode ser interpretada como um processo de mercantilização do sagrado. Para Sousa
(2014), o turismo espiritual e religioso, embora centrado na fé, envolve inevitavelmente
interacções económicas que podem beneficiar a comunidade local.
Portanto, os resultados evidenciam que a peregrinação à Nossa Senhora do Monte não
apenas reforça a identidade religiosa dos participantes, mas também se configura como
um evento de impacto económico, criando oportunidades de negócio que fortalecem o
comércio local e contribuem para a sustentabilidade das práticas religiosas e culturais da
região.
Questão 9 – Considera que existe equilíbrio entre as práticas religiosas e as
actividades turísticas no Santuário?
Tipo de Resposta
Nº de Frequências
%
a. Sim
29
60%
b. Não
19
39%
Total
48
100%
Tabela n.º 9; Fonte: Recolha feita pelos autores, 2025
MUPANDA Revista Científica Multidisciplinar: V.1, N.1, p.145-167, 2026
Página | 162
Quando questionados sobre a existência de equilíbrio entre as práticas religiosas e as
actividades turísticas no Santuário da Nossa Senhora do Monte, 60% dos inquiridos
responderam afirmativamente. Este resultado revela que a maioria dos participantes que
alegaram a dimensão espiritual não se encontra comprometida pela presença do turismo,
indicando que há uma percepção positiva quanto à convivência entre fé e economia.
A literatura aponta que o turismo religioso, quando bem gerido, pode funcionar como
espaço de complementaridade. Para Sharpley e Sundaram (2005), o desafio central
consiste em evitar a comercialização excessiva do sagrado, preservando o carácter
religioso dos lugares de culto enquanto se aproveitam os benefícios económicos advindos
do turismo.
Assim, o facto de a maioria dos inquiridos reconhecer a existência de equilíbrio no
Santuário da Nossa Senhora do Monte indica que a comunidade consegue integrar
práticas religiosas e actividades turísticas sem que uma dimensão anule a outra. Este
equilíbrio revela uma dinâmica de coexistência simbólica, onde o espaço sagrado mantém
a sua centralidade religiosa ao mesmo tempo que se abre a interacções socioeconómicas
que beneficiam a população local.
Questão 10– Considera que o turismo religioso contribui positivamente para a
economia local?
Tipo de Resposta
Nº de Frequências
%
a. Sim
38
79
b. Não
10
21
Total
48
100
Tabela n.º 10; Fonte: Recolha feita pelos autores, 2025.
No âmbito da questão sobre se o turismo religioso contribui para a economia local, 79%
dos inquiridos responderam afirmativamente, reconhecendo o impacto positivo desta
prática no desenvolvimento socioeconómico da região. Este resultado evidencia a
percepção de que as actividades religiosas, sobretudo as peregrinações e festividades em
honra à Nossa Senhora do Monte, não se limitam ao campo espiritual, mas estão
intrinsecamente associadas ao dinamismo económico da cidade do Lubango. Assim,
Sharpley e Sundaram (2005), reforçam esta perspectiva ao salientar que o turismo
religioso representa um fenómeno híbrido, no qual a espiritualidade se articula com a
economia, exigindo equilíbrio entre as práticas de fé e as demandas do mercado turístico.
MUPANDA Revista Científica Multidisciplinar: V.1, N.1, p.145-167, 2026
Página | 163
Tal equilíbrio é essencial para evitar a descaracterização da experiência religiosa,
preservando a autenticidade cultural e espiritual do evento.
Neste contexto, os resultados obtidos demonstram que a comunidade local percebe o
turismo religioso como um motor de desenvolvimento, ao mesmo tempo que reforça a
importância de políticas públicas que conciliem a valorização cultural e religiosa com
estratégias de sustentabilidade económica.
A importância atribuída à religião como elemento estruturante da identidade local surge
articulada a um sentimento de pertença que se manifesta no reencontro anual da
comunidade, tanto dos residentes como dos filhos da terra que regressam para participar
da celebração. Neste sentido, a festividade funciona como um lugar de memória colectiva,
onde se cruzam narrativas de fé, experiências comunitárias e representações culturais que
fortalecem o imaginário social dos peregrinos. Assim, torna-se evidente a importância
de políticas públicas integradas que conciliem a valorização cultural e religiosa com
estratégias de sustentabilidade económica e patrimonial. Tais políticas devem assegurar
que o turismo não resulte na mercantilização excessiva dos rituais, evitando a perda de
autenticidade e garantindo que a comunidade local permaneça protagonista na gestão e
na transmissão dos seus próprios valores religiosos e identitários.
Desta forma, a análise revela que, as festividades da Nossa Senhora do Monte não se
reduzem a eventos turísticos: elas constituem-se, sobretudo, em manifestações de fé que
reafirmam laços comunitários e sustentam a construção contínua da identidade local, ao
mesmo tempo que se adaptam às transformações sociais, culturais e económicas
contemporâneas.
Considerações finais
Os dados recolhidos a um público-alvo constituído por 48 inquiridos confirmam que as
festividades da Nossa Senhora do Monte desempenham um papel multifacetado na
sociedade em estudo, actuando simultaneamente como prática de fé, espaço de afirmação
identitária e motor de dinamização turística e dinamizam também componentes
económicas.
MUPANDA Revista Científica Multidisciplinar: V.1, N.1, p.145-167, 2026
Página | 164
Os resultados indicam que a religião, além de orientar a espiritualidade individual,
continua a ser um elemento estruturante da identidade colectiva e do desenvolvimento
económico local, pelo que foi constatado nas questões 8 e 10.
Conclui-se, portanto, que a integração entre religião e turismo, no Lubango, deve ser
compreendida como um fenómeno social contemporâneo, no qual fé, tradição e economia
se entrelaçam, demandando uma contribuição tanto para a preservação da memória
cultural quanto para a valorização do território como destino turístico-religioso.
Referências Bibliográficas
Abreu, L. M. de. (2014). A Nação e simbólica religião. In G. Editor (Ed.), Europa das
Nacionalidades: Imaginarios, Identidadese Metamorfoses Politicas (1a Edição, pp. 103–
111).
Alexandre, V. (1979). Origens do Colonialismo Português Moderno (SÁ DA COSTA
EDITORA (ed.); 1o Edição).
Althusser, L. (1979). Aparelho ideológico do estado (1a Edição).
Alves De Almeida, A. R., & Baptista, M. M. (n.d.). 2 TURISMO CULTURAL E
RESISTÊNCIA: UMA APLICAÇÃO A PARTIR DOS MÉDIA LOCATIVOS (pp. 1–14).
Amado, J. (2017). Manual de investigação qualitativa em educação (3a Edição).
André, J. M. (2012). Multiculturalidade Intidade e Mestiçagem (Palimage (ed.); 1a
Edição).
Assembleia da Republica. (1826). Constituição Portuguesa (p. 39).
ttps://www.parlamento.pt/Parlamento/Documents/CartaConstitucional.pdf
Bhabha, H. k. (1998). O Local da Cultura (1a Edição).
Bourdeu, P. (2021). O Poder Simbólico.
Bracons, H. (2018). Interculturaidade Elementos Para Uma Melhor Comprensão (E. U.
Lusófona (ed.); 1a Edição).
Brambilla, A., & Baptista, M. (2015). Cultura e Enoturismo : um estudo na Região
Demarcada do Douro. Universidade de Aveiro.
Brito, T. M., & Baptista, M. M. rocha T. (2021). Influências da interculturalidade e
multiculturalidade na prestação de serviços em navios de cruzeiro. Journal of Tour Sm &
Development, 1(36), 491–501.
MUPANDA Revista Científica Multidisciplinar: V.1, N.1, p.145-167, 2026
Página | 165
Cabecinhas, R., & Feijó, J. (2013). Representações sociais do processo colonial -
perspetivas cruzadas entre estudantes moçambicanos e portugueses. Configurações, 12,
117–139. https://doi.org/10.4000/configuracoes.2053
Carvalho, T. de I. (2020). Compreender os processos do turismo: uma estrutura sensível
ao género. In G. Editor (Ed.), Género e Performance T E X T O S E S S E N C I A I S 3
(1a edição, pp. 131–154).
Castro, B. M. de. (2017). Património cultural e a reabilitação urbana. Um caminho psrs
o desenvolvimento do turismo na cidade hist´rica do dondo (Angola). Universidade de
Coimbra.
Costa, A. (2021). Notas Sobre Museus, Exposições e Discursos de Representação do
Passado e do Presente. In Culturas e Turismo: Reflexões Sobre o Património, as Artes e
a Comunicação Intercultural (pp. 13–24). UMinho Editora/CECS.
https://doi.org/10.21814/uminho.ed.48.2
Coutinho, C. P. (2016). Metodologia de Investiogação em Ciências Sociais e Humanas:
Teoria e Prática (Edições Almeidina (ed.); 2a Edição).
Durkheim, É. (2004). As regras do método sociológico (9a Edição).
Gil, A. C. (2002). Como Elaborar Projetos de Pesquisa (Editora Atlas (ed.); 4 a Edição).
Guerra, I. C. (2014). Pesquisa Qualitativa e Análise de Conteúdo: Sentidos e formas de
uso (P. Editora (ed.); 6a Edição).
Hall, S. (1992). A Identidade cultura na pós-modernidade (11a Edição).
HALL, S. (1992). A Identidade na Pós-modernidade.
Henderson, L. W. (2001). A igreja m Angola: Um rio com várias correntes (2.a edição).
Henriques, I. C. (2015). COLONIALISMO E HISTÓRIA (p. 31).
J.W.Creswell. (2007). Projecto de pesquisa: metodos misto quantitativo , qualitativo e
misto (p. 18).
Jordão, F. V. (1993). Fenomenologia de Ia Religión. Revista Filosófica de Coimbra-n.°,
4, 295–311. http://www.uc.pt/fluc/dfci/publicacoes/religiao_sob_o_pv_filosofico
Lévi-Strauss, C. (2008). Raça e Históriua (E. Presença (ed.); 9 Eduçãõ).
Lopes, L. P. e E. S. (2011). Métodos e Técnicas de Investigação Social (A. Editores (ed.);
1a Edição).
Maia, S. (2010). Rotas Museológicas na Região de Aveiro – Um Estudo Empírico. Gestão
e Planeamento em Turismo. Uinversidade de Aveiro.
MUPANDA Revista Científica Multidisciplinar: V.1, N.1, p.145-167, 2026
Página | 166
Martins, M. de L., & Silva, R. da. (2021). Turismo, Culturas e Comunicação Intercultural:
Uma Breve Introdução. In Culturas e Turismo: Reflexões Sobre o Património, as Artes e
a Comunicação Intercultural (pp. 7–11). UMinho Editora/CECS.
https://doi.org/10.21814/uminho.ed.48.1
Martins, O. (1986). Sistema Dos Mitos Religiosos (Guimarães Editores (ed.); 4aEdição).
Matos, P. F. de. (2006). As côres do império representações raciais no império colonial
portugûes (3a Edição).
Pereira, M. P. (2014). A Escola Portuguesa ao serviço do Estado Novo: as Lições de
História de Portugal do Boletim do Ensino Primário Oficial e o Projeto Ideológico do
Salazarismo (pp. 59–81).
Pernas, A. (2022). As tabernas no Estado Novo como espaço transformador de indizével
em dizivel. In E. Húmus (Ed.), A Traição das palavras reitórica do poder e
suscentabilidade da línguagem (1a Edição, pp. 153–168).
Pinto, A. R. K., & Baptista, M. M. (2020). A exotização no período colonial e pós-
colonial: O caso de Portugal dos Pequenitos. Revista Lusófona de Estudos Culturais, 7(2),
113–123.
Reis, B. C. (2009). O CATOLICISMO E O ESTADO NA HISTÓRIA RELIGIOSA
CONTEMPORÂNEA (Vol. 21, pp. 263–282).
REIS, B. C. (2009). O CATOLICISMO E O ESTADO NA HISTÓRIA RELIGIOSA
CONTEMPORÂNEA. LUSITANIA SACRA, 2(21), 263–283.
República, A. da. (1822). A Constituição Portuguesa de 1822.
http://www.arqnet.pt/portal/portugal/liberalismo/c1822t3.html
Rezola, M. I. (2012). A Igreja Católica nas origens do salazarismo / The Catholic Church
in the origins of Salazar´s Estado Novo [New State]. Revista de História Juiz de Fora,
2012, v.18, n.1, p. 69-88, V.18(I), 68–88.
https://www.academia.edu/7157011/A_Igreja_Católica_nas_origens_do_salazarismo_T
he_Catholic_Church_in_the_origins_of_Salazar_s_Estado_Novo_New_State_
Santos, M. do C. L., & Lorena, M. do C. (2008). Imagens de um destino turístico: O caso
de Cabo Verde. Forum Sociológico, 18, 69–77.
Silva, T. T. da. (2000). A produção social da identidade e da diferença. In Editora Vozes
(Ed.), Identidade e diferença A perspectiva dos Estudos Ciulturais (3a Edição, pp. 61–
85).
Silveira, L. (2019). O olhar europeu sobre o Brasil: Da exotização do paraíso à
mercantilização turística (Grácio Editores (ed.); 1a Edição).
SOUSA, J. G. (2014). Velhice na cultura contemporânea : um estudo sobre a perda
emocional profunda JENNY GIL SOUSA Velhice na cultura contemporânea : um estudo
sobre a perda emocional profunda. Universidade de Aveiro.
MUPANDA Revista Científica Multidisciplinar: V.1, N.1, p.145-167, 2026
Página | 167
Tuckman, B. W. (2002). Manual de Investuigação Em Educação (F. C. Gulbenkian (ed.);
2a Edição).
TURNER, G. (1990). British Cultural Studies: An Introduction. (p. 19).
Yin, R. k. (2010). Estudo de caso planejamneto e métodos (Bookmam (ed.); 4o Edição).
Este artigo está licenciado sob a licença: Creative Commons Attribution-NonCommercial 4.0 International
License. Ao submeter o manuscrito o autor está ciente de que os direitos de autor passam para a Revista Científica
Mupanda
Recebido: 2025-10-12
Aceite: 2026-01-30