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Fatores do insucesso escolar um estudo de caso na escola primária na
província do Huambo - Angola
School failure factors a case study in primary school in Huambo province – Angola
Factores de fracaso escolar un estudio de caso en la escuela primaria de la provincia
de Huambo - Angola
Marcial Chiqueva Fernando
1
Instituto Superior Politécnico de Humanidades e
Tecnologias Ekuikui II, Huambo, Angola
mchiqueva@gmail.com
Resumo
O objetivo deste artigo é identificar os fatores do insucesso escolar numa Escola Primária da
Província do Huambo, no período de dois anos. Para atingirmos os objetivos seguimos uma
metodologia quantitativa descritiva assente em um estudo de caso realizado numa escola
primária que teve como participantes todos os agentes educativos (dirigentes, professores,
alunos e encarregados de educação) pelo período de três anos. Aplicou-se aos agentes
educativos questionário dirigido e aos dirigentes e alguns professores entrevistas. A análise aos
dados recolhidos parece apontar que os factores que geram o insucesso escolar no ensino
primário são: i) a insuficiência do número de salas de aulas; ii) os alunos com aulas ao ar livre;
iii) sem materiais e sem tomar o pequeno-almoço; iv) os professores a gerirem salas de aula
com 70 ou mais alunos, selecionados para a função sem critérios de admissão e em muitos
casos não tem habilidade para lidar com crianças nem para gerir a sala de aula ; e, v) um forte
absentismo. Como estratégias para o insucesso escolar o estudo identificou: i) a necessidade
de aumentar o número salas de aula; ii) definir um perfil para o professor primário; iii) fixar
número máximo de alunos por sala de aula; iv) criar mecanismo de apoio às famílias que
garantam a nutrição necessária aos alunos; v) planificar a formação contínua para os
professores do ensino primário; vi) melhorar relação família-escola e sua participação nas
atividades programadas.
Palavras-chaves: Insucesso escolar, ensino primário, Angola.
Abstract
The aim of this article is to identify the factors behind school failure in a primary school in
Huambo Province over a two-year period. In order to achieve our objectives, we followed a
descriptive quantitative methodology based on a case study carried out in a primary school,
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1
Doutorando em Educação na Universidade Lusófona - Centro Universitário de Lisboa, Portugal
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which involved all the educational agents (leaders, teachers, pupils and carers) for a period of
three years. A questionnaire was administered to the educational agents and interviews were
carried out with the managers and some teachers. The analysis of the data collected seems to
indicate that the factors that generate school failure in primary education are: i) the insufficient
number of classrooms; ii) pupils in outdoor classes; iii) no materials and no breakfast; iv)
teachers managing classrooms with 70 or more pupils, selected for the job without admission
criteria - and in many cases having no ability to deal with children or manage the classroom -;
and, v) high absenteeism. As strategies for school failure, the study identified: i) the need to
increase the number of classrooms; ii) define a profile for primary school teachers; iii) set a
maximum number of pupils per classroom; iv) create support mechanisms for families to
guarantee the necessary nutrition for pupils; v) plan continuous training for primary school
teachers; vi) improve family-school relations and their participation in programme activities.
Keywords: School failure, primary education, Angola.
Resumen
El objetivo de este artículo es identificar los factores del fracaso escolar en una escuela
primaria de la provincia de Huambo durante un período de dos años. Para alcanzar nuestros
objetivos, seguimos una metodología cuantitativa descriptiva basada en un estudio de caso
realizado en una escuela primaria, en el que participaron todos los agentes educativos
(directores, profesores, alumnos y cuidadores) durante un período de tres años. Se administró
un cuestionario a los agentes educativos y se realizaron entrevistas a los directores y a algunos
profesores. El análisis de los datos recogidos parece indicar que los factores que generan el
fracaso escolar en la enseñanza primaria son: i) el número insuficiente de aulas; ii) alumnos en
clases al aire libre; iii) falta de material y de desayuno; iv) profesores que dirigen aulas con 70 o
más alumnos, seleccionados para el puesto sin criterios de admisión - y en muchos casos sin
capacidad para tratar con niños o gestionar el aula -; y, v) elevado absentismo. Como
estrategias para el fracaso escolar, el estudio identificó: i) la necesidad de aumentar el número
de aulas; ii) definir un perfil para los profesores de primaria; iii) establecer un número máximo
de alumnos por aula; iv) crear mecanismos de apoyo a las familias para garantizar la
alimentación necesaria de los alumnos; v) planificar la formación contínua de los profesores de
primaria; vi) mejorar las relaciones familia-escuela y su participación en las actividades
programadas.
Palabras clave: Fracaso escolar, enseñanza primaria, Angola.
INTRODUÇÃO
Neste trabalho vamos refletir sobre os fatores do insucesso escolar - um estudo feito a
partir da Escola Primária Árvore do Conhecimento n.º 84, durante dois anos.
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Na verdade, falar de insucesso escolar é abordar um fenómeno complexo, visto que,
envolve o Estado, os alunos, os pais, os professores e torna-se complexo porque quase
que ninguém quer assumir a responsabilidade na primeira pessoa. Os alunos dizem
que insucesso escolar porque os professores são muito rigorosos, os professores
dizem que há insucesso escolar quando os alunos não se empenham e os pais afirmam
que insucesso escolar quando não têm condições favoráveis para comprar
materiais para os filhos. Alguns pais e professores também dizem que se verifica
insucesso escolar quando o Estado não paga bem aos professores, e não oferece boas
escolas para se poder dar bem as aulas. Como se vê é difícil tratar deste tema.
O que nos motivou a reflectir sobre a temática dos fatores do insucesso escolar é o
amor pelo Ensino Primário, pois é onde começa a formação do homem. Se
quisermos um ensino de qualidade é preciso começar pela base, isto é, no Ensino
Primário. Porque é neste nível de ensino que se deve valorizar o conhecimento ‘’um
bom começo vale para toda a vida’’, uma boa relação com a escola, que não mata a
curiosidade, que não faz separação entre o que vai aprender e o que não vai aprender.
O índice elevado de insucesso escolar na escola em análise está na base da escolha
deste tema para diagnosticarmos e analisarmos os fatores que o promovem e
encontrar os mecanismos para poder mitigar este problema.
Tal como em muitos países do mundo existe uma preocupação com o fenómeno do
insucesso escolar e Angola não foge à regra. Assim, o insucesso e o abandono escolar
em Angola são fatores de forte preocupação e com os quais se debatem muitas
escolas espalhadas pelo país. Verificamos todos os anos alunos a repetirem de classe,
outros a desistirem, em resultado de os espaços para estudar serem escassos, uma
vez que existem poucas escolas e o número de professores é reduzido, e por isso
criam-se salas de aulas com um número elevado de alunos, o que pode contribuir para
o insucesso escolar no ensino primário.
Este artigo encontra-se estruturado em quatro secções: na primeira temos o
enquadramento teórico; na segunda a problemática; na terceira apresentamos a
metodologia e, finalmente na quarta fazemos a análise dos dados.
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1. ENQUADRAMENTO TEÓRICO
Insucesso Escolar
1.1. O Insucesso Escolar na Perspectiva de diferentes autores
O estudo do fenómeno do insucesso escolar é recente na história. É a partir dos anos
60 onde encontramos os primeiros pesquisadores desta temática. Realmente, o
conceito surge associado à implementação da obrigatoriedade escolar, decorrente das
exigências da sociedade industrial. A sua noção conceptual assume-se nos meandros
da rede política económica do século XX, com a organização das escolas com
currículos estruturados, que pressupõem, por inerência, metas de aprendizagem
(Benavente, Pires, Pais, & Relva, sd, p. 1).
Na óptica de Roazzi e Almeira, o insucesso é a ‘’ falta de bases dos alunos ou, ainda, o
disfuncionamento de estruturas educativas, familiares e sociais’’ (Roazzi & Almeira,
1988, p. 45).
Para Rangel, o insucesso escolar que conhecemos hoje é datado de bem poucos
anos. Esta noção passou gradualmente do campo da psicologia ao da sociologia,
porém ela não fez essa passagem em todos os locais e ao mesmo tempo (Rangel, 1999,
p. 44).
Para Benavente, o insucesso escolar é um fenómeno constante em todos os anos em
que avaliação formal, ao longo do percurso escolar e em todos os sistemas
escolares há Insucesso.
1.2. Clarificação do Conceito de Insucesso Escolar
Etimologicamente, a palavra insucesso vem do latim insucessu(m), o que significa
“malogro; mau êxito; falta de sucesso que se desejava” ou ainda “mau resultado, mau
êxito, falta de êxito, desastre, fracasso” (AA.VV, 1942, p. 899). O conceito de insucesso
escolar tem a ver com o mau resultado dos alunos em relação aos objetivos escolares,
isto é, quando o aluno não consegue aprender.
O vocábulo insucesso é habitualmente referenciado por analogia ao termo sucesso,
que advém do latim sucessu(m), o qual assume, entre outros, os seguintes significados
“o bom êxito, conclusão” ou “chegada, resultado, triunfo’’ (Mendoça, 2005, p. 1).
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Portanto, em síntese, fala-se de insucesso escolar quando um aluno não consegue
atingir o saber, ou seja, quando um aluno não é capaz de assimilar as matérias
escolares a ponto de transitar de classe. Quando falamos de insucesso escolar em
causa estão os alunos, os professores, os encarregados de educação, o ambiente que
rodeia as crianças e a escola, o governo e toda a comunidade. Por isso, o insucesso
escolar atinge toda a sociedade
2
.
1.2.1. Teorias Explicativas do Insucesso Escolar
Para a explicação do insucesso escolar temos três teorias: Teoria dos Dotes
Individuais, Teoria do ‘’Handicap’’ ou Défice Sociocultural e Teoria Socioinstitucional.
1.2.2. Teoria dos Dotes Individuais
Nas teorias psicológicas sobre Inteligência pré-Piaget, concebe-se a inteligência como
um dote de nascimento, estático, imutável. O aluno é o único responsável pela sua
aprendizagem. A Escola é considerada neutra.
«Uma das consequências mais indesejadas da utilização dessa
abordagem é a identificação do aluno como alguém que possui uma falha
orgânica, ou seja, um déficit neurológico. No emprego dos termos como
dislexia, hiperatividade e disfunção cerebral mínima, tende-se a ver o
aluno como o único responsável pelo seu próprio fracasso» (Griffo, 1996,
p. 23).
A criança que reprova era discriminada como uma pessoa que não presta, não vale
nada, por isso, era posta de lado sem ninguém lhe dar valor. Portanto, a teoria dos
«dotes» naturais, foi posta em causa pelos pesquisadores da construção da
inteligência, e por uma outra razão, nos anos 60, Pierre Bourdieu, em colaboração com
outros pesquisadores, mostrou que os resultados escolares são socialmente seletivos.
Não podemos aceitar que o insucesso escolar seja uma questão de «dotes» naturais
centrados na criança, ele ou ela que não é capaz. Os sociólogos também rejeitaram
esta teoria e mostraram que os filhos dos ricos e mais instruídos têm menos
insucessos em relação aos filhos dos menos instruídos e mais pobres. Desta feita, a
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2
Cfr. O conceito insucesso escolar apresenta várias definições, mas todas elas têm um ponto comum
que tem a ver com o fraco rendimento dos alunos na escola.
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tónica do insucesso escolar é posta nas famílias, nas comunidades, no meio
sociocultural.
1.2.3. Teoria do ‘’Handicap’’ ou Défice Sociocultural
A segunda abordagem do fenómeno do insucesso escolar surgiu do desenvolvimento
de pesquisas no campo da psicologia cognitiva. Trata-se de uma abordagem
instrumental cognitiva, assim designada por procurar as causas das dificuldades de
aprendizagem em possíveis disfunções relativas a um dos quatro processos
psicológicos fundamentais: a percepção, a memória, a linguagem e o pensamento. É
baseada nas teorias da “busca de talentos”. A tónica é posta nas famílias, nas
comunidades, no meio sociocultural.
Por conseguinte, a teoria do défice sociocultural, afirma que, se não são as crianças, os
culpados do insucesso escolar são as famílias que não têm a cultura da escola nem o
conhecimento da escola. Com a evolução dos tempos esta teoria foi posta em causa
por que a questão tem a ver com o insucesso escolar. Assim, fica a questão: se o
insucesso é escolar, porque não se interroga a escola? A escola é uma instituição
social histórica. Surge assim a terceira teoria do insucesso escolar, que são as teorias
socioinstitucionais.
1.2.4. Teoria Socioinstitucional
A teoria socioinstitucional baseia-se nos conhecimentos das ciências sociais e
humanas contemporâneas. Questiona-se a relação entre a sociedade, na sua
diversidade e desigualdades e a escola. A escola não é neutra. Estamos assim diante
de três realidades que temos de ter em linha de conta no estudo do insucesso escolar:
o meio social, a criança e a instituição escolar. Benavente afirma que, é na relação
destas três realidades que devemos procurar os fatores de insucesso escolar e suas
causas explicativas. Não podemos de facto atribuir unicamente à criança as culpas do
seu insucesso escolar sem termos em consideração o meio em que vive e as
características da escola primária (Benavente, 1976, p. 20).
Em síntese, a teoria socioinstitucional revela-nos que o insucesso escolar resulta de
uma relação negativa entre as expectativas das crianças e a cultura dominante da
escola. Por isso, se fala de pedagogia diferenciada que procure desenvolver atividades
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diferentes de modo a poder envolver os diferentes perfis das crianças. As crianças vêm
de meios diferentes e é nesta relação que reside o fator mais importante do insucesso
escolar. Podemos ainda apontar como causa socioinstitucional quando um professor
não consegue leccionar com perícia e isso influencia negativamente o rendimento
escolar do aluno ao mesmo tempo que se reflecte no mau desempenho da organização
da escola.
1.3. A escola e os seus protagonistas
3
A escola primária não seria uma fase da vida, mas ‘’a base’’ da vida; não seria uma
instituição em que se realizam certas aprendizagens, mas o “início de tudo”. As
crianças que chegam à escola realizaram aprendizagens fundamentais da espécie
humana (andar, falar, comunicar com os outros), mas, ouvem muitas vezes, no
primeiro dia de aulas que ‘’não sabem nada’’, que têm ‘’tudo a aprender’’ (Benavente,
1990, p. 150). De facto, a escola primária tem de ter uma atenção muito especial para
com os alunos, porque é o alicerce. Frequentando um ensino primário de qualidade o
aluno estará bem capacitado e habilitado para frequentar com êxito as outras classes.
Caso contrário, amontoam-se obstáculos e dificuldades. Para o efeito, Benavente
aponta três questões que constituem obstáculos ao sucesso escolar:
Primeira questão: ‘’a escola produz obstáculos ao sucesso escolar de certos
alunos, tanto ao nível do seu funcionamento como das suas práticas
institucionais. Uma escola com turmas muito extensa de alunos, o professor
não consegue dar atenção a todos os alunos.
Segunda questão: ‘’os professores traduzem diferentes atitudes pedagógicas e
explicitam critérios diversos quanto aos alunos e ao processo de ensino-
aprendizagem. Certas atitudes e certos critérios dificultam o sucesso escolar
dos alunos. Atribuem as dificuldades escolares às características individuais
das crianças ou às dos meios sociofamiliar e ainda com menor frequência, a
certos aspectos do funcionamento da escola.’
Nota-se que muitos professores não valorizam as aprendizagens anteriores dos
alunos; o discurso pedagógico é muito estereotipado.
Terceira questão: ‘’as relações escola-família-comunidade atualmente
dominantes dificultam o sucesso escolar dos alunos dos meios populares’’
(Benavente, 1990, pp. 152-153).
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3
Cfr. Os protagonistas da escola são o estado, os professores, os alunos, os encarregados de educação
e todos aqueles que de uma forma direta ou indireta contribuem no processo de ensino e aprendizagem.
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Portanto, a escola deve valorizar o aluno e as suas potencialidades desde o início
porque ‘‘um bom começo vale para toda vida.’’ Uma boa relação com a escola é
importante, pois que, é na escola onde se molda o perfil de um homem.
1.4. As Consequências do Insucesso Escolar
O insucesso escolar é um problema que tem consequências negativas. Mancha o perfil
do aluno. A escola convence o aluno de que a responsabilidade é do próprio, que não
assimila. Benavente ao falar das consequências do insucesso escolar apontou as
seguintes:
a) O Insucesso Escolar traz consigo estigma individual desde a infância “aí que
feia / feio”, reprovou, tens que estudar mais olha o teu irmão, primo, etc.,
etc.” A criança que reprova fica muito triste e fica com um sentimento de não
valer nada e isto faz-lhe mal.
b) Atinge a autoestima da criança desde muito cedo e leva, quando se torna
cumulativo e constante, ao desinteresse escolar e à procura de afirmação
individual de que toda a pessoa e em particular os adolescentes precisam
noutros domínios, por vezes socialmente marginais e problemáticos.
O insucesso escolar é um fenómeno cumulativo, em estudos estatísticos e, portanto,
extensivos, o grupo de alunos que reprovou é o grupo em que a percentagem de
reprovação é sempre mais elevada (‘’quem chumba, volta a chumbar’’).
A criança quando regista insucesso escolar acaba, a maioria das vezes, por abandonar
a própria escola e isto leva-a à exclusão social. E uma criança excluída do processo de
ensino e aprendizagem acaba por comprometer o seu futuro e ficar mais vulnerável a
várias situações de risco, incluindo adoptar mecanismo negativos de sobrevivência.
Em síntese, por outras palavras, podemos dizer que, uma criança quando fracassa na
escola com muita frequência, pode-se tornar ameaça para a própria sociedade. Como
não tem capacidade de assimilar a matéria vai ter dificuldades em singrar na vida. As
consequências do insucesso escolar são individuais e coletivas. Individuais porque a
criança fica atirada e abandonada e coletivas porque quanto mais insucesso menos
eficácia da escola e mais problemas tem a sociedade. Todas as crianças em geral são
capazes de assimilar conhecimentos básico, desde que o professor procure utilizar
estratégias a ponto de os alunos assimilarem a matéria, excepto para as crianças que
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tenham necessidade educativas especiais as quais devem ter o acompanhamento
adequado.
1.5. O Insucesso Escolar em Angola
Angola é um país que conquistou a paz definitiva em 2002, pelo que podemos
afirmar que, durante muito tempo, a educação em Angola vacilava por não existirem as
condições necessárias para se poder ter um ensino estável e daí o índice de
analfabetismo ser elevado.
De facto, vemos ainda muitas crianças fora do sistema da educação, outras estão no
sistema de ensino, mas nem todas chegam ao fim do ano lectivo e das que chegam,
nem todas aprovam de classe. Mas este é um problema que não é de hoje, vem desde a
retirada dos portugueses, em 1975 (Vieira, 2007, p. 43), porque havia poucos
estabelecimentos de ensino e um elevado número de pessoas a querer estudar, isto
numa época em que o número de analfabetos rondava 85% da população (Santo, 2000,
p. 156).
Como é sabido em Angola pós conflito, 1975 até ao momento da pesquisa conheceu
duas reformas educativas e apesar disso os efeitos destas não são ainda os desejáveis.
Segundo Perrenoud (1999) as reformas de estrutura de programas são legítimas, no
entanto, dão frutos se acompanhadas de boas práticas. O autor menciona também
que a mudança é quase sempre pensada para um corpo de professores que ainda não
existe, defendendo que:
Os professores de hoje na sua grande maioria, não estão dispostos, nem
preparados para praticar uma pedagogia ativa e diferenciada - envolver os
alunos nos projetos, conduzir uma avaliação formativa e trabalhar em equipa.
Por isso, é importante repensar a natureza das formações iniciais para tornar o
processo de reforma possível e ambicioso; fazendo da formação continuada um
vetor de profissionalização, introduzindo dispositivos concretos de coordenação
das inovações e das formações sem se basear num conjunto de pontos de vista
e calendários; ou seja, fazer com que esta formação se dirija cada vez, mais a
um corpo docente que existe (Perrenoud, 1999, p. 11).
É de salientar que no contexto da pesquisa a reforma educativa parece ser um dos
factores que está a influenciar o elevado insucesso escolar, desde logo porque não
incluiu os professores e estes apresentam dificuldade de em implementar as propostas
da reforma porque, muitas delas, não são contextualmente aplicadas. Referimo-nos,
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por exemplo à monodocência e à agregação pedagógica, as quais são de difícil
cumprimento à generalidade dos professores
Portanto, em Angola, em geral, e no Huambo, em particular, verificamos insucesso
escolar não ao nível do ensino primário, mas também no sistema geral da educação,
o qual se deve primeiramente às referidas condições históricas. Mas, como vimos
atrás, na atualidade esse insucesso parece dever-se sobretudo às condições
socioinstitucionais. Como propusemos na Introdução, vamos, com base nessa teoria,
refletir sobre os fatores do insucesso escolar numa escola do Huambo.
2. METODOLOGIA
Contexto da pesquisa
Ao deparamos com alunos que estão estagnados no Ensino Primário na Escola Árvore
do Conhecimento 84 e que, como consequência, não conseguem transitar para o
segundo ciclo. Assim, o objectivo da investigação é identificar os factores que
influenciam o insucesso escolar dos alunos da Escola Primária Árvore do
Conhecimento do Nº 84 na Província do Huambo.
Para atingirmos os objetivos fizemos um estudo de caso junto dos sujeitos da pesquisa:
o Diretor, os Professores e os alunos da Escola Primária Árvore do Conhecimento do
Huambo 84. Deslocamo-nos à instituição várias vezes, ao longo de três anos
lectivos, para conhecer a estrutura orgânica, promover encontros com os sujeitos da
pesquisa, tendo-se intensificado as visitas no último ano.
Elaboramos um questionário dirigido aos 48 professores da instituição e a 55 alunos da
classe, como amostra dos 480, num universo de 3.348 alunos matriculados em
todos as classes, com vista a identificar os fatores do insucesso escolar na Escola
Árvore do Conhecimento Nº 84, bem como, procurar vias para mitigar este problema.
Método
A nossa abordagem foi um Estudo de Caso o qual consiste no exame detalhado e
completo de um fenómeno ligado a uma entidade. A entidade pode ser um indivíduo,
um grupo, uma família, uma comunidade ou uma organização. Tal como Fortin (2019)
defende, O estudo de caso não se confina à simples descrição de um caso
reconhecido como sendo particular e único, tal como uma doença rara, pode também
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servir para verificar a eficácia de um tratamento e para formar hipótese na base dos
resultados obtidos” (Fortin, 2009, p. 241). Então, se o estudo de caso incide sempre
sobre um caso particular, examinado em profundidade, toda a forma de generalização
não é por isso excluída (Laville & Dionne, 1999, p. 156). Vamos estudar o insucesso
escolar na Escola Árvore do Conhecimento Nº 84 procurando entender através dos
professores e dos alunos o que está na base da reprovação dos alunos.
Assim, nesta abordagem como tipo da pesquisa usamos o Estudo de Caso onde
fizemos uma pesquisa qualitativa, pois que, é descritiva. Recorremos também aos
elementos quantitativos porque elaborar um inquérito a todos os professores (48) e
outro a alunos (55) da classe, como amostra dos 480, do universo de 3.348 alunos
matriculados na instituição. Foram ainda entrevistados dois professores, um da e
outro classe - um que apresenta menos insucesso e outro que apresenta mais
insucesso - e o Diretor da Escola Árvore do Conhecimento do Huambo
Para se colher informação a propósito de fenómenos humanos, o pesquisador pode,
segundo a natureza do fenómeno e das suas preocupações de pesquisa, ou consultar
documentos sobre a questão, ou encontrar essas informações observando, o próprio
fenómeno, ou ainda interrogando pessoas que o conhecem (Laville & Dionne, 1999, p.
176). Portanto, a investigação utilizou como técnicas e instrumentos de recolha de
dados usamos a observação, o questionário e a entrevista.
Tendo em conta a tipologia da pesquisa, associada aos objetivos propostos para a
execução da mesma escolhemos alguns instrumentos que nos serviram de suporte
para a coleta dos dados pesquisados. São eles a observação, o questionário, a
entrevista e o diário de bordo.
A observação das aulas dos professores procurou entender a relação dos professores
com os alunos e com os encarregados de educação.
As técnicas e os instrumentos que apelam para os testemunhos são próprios das
ciências humanas (Laville & Dionne, 1999, p. 183). Para esta investigação optou-se em
utilizar o inquérito por questionário fechado. Como instrumento de recolha de dados,
que foi aplicado aos 48 professores e aos 55 alunos da 6ªclasse, como amostra dos
480 matriculados, do universo de 3.348 alunos da Escola Primária Árvore do
Conhecimento Nº 48, na Província do Huambo.
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Para a recolha de dados recorreu-se também à entrevista semiestruturadas, aplicada
a dois professores, um da e outro da classe, um com menos Insucesso Escolar e
outro com mais Insucesso Escolar, bem como ao diretor da Escola.
O roteiro de bordo permitiu-nos verificar que nem todos os professores detém as
ferramentas pedagógicas para orientar o processo de ensino aprendizagem de modo a
garantir o sucesso escolar alunos. Encontramos um número de professores que estão
a frequentar uma Escola de Formação de Professores, por contraponto a outros
professores que têm dificuldades em lecionar, sobretudo, porque estão formados em
outras áreas do saber diferente da que ministram.
As visitas feitas à Escola permitiram-nos observar o modo de lecionar dos professores
bem como analisar a relação existente entre o professor, o aluno e os encarregados de
educação, verificámos também o modo de escrever, ler, falar e contar dos alunos.
Outro aspecto observado foi que nem todos os alunos têm o material escolar
necessário à aprendizagem o que decorre da própria caracterização socioeconomica
dos pais dos alunos. Existem alunos oriundos de famílias de nível económico razoável,
onde o pai e a mãe, ou simplesmente um dos membros da família, tem um emprego
digno, e outros que vêm de famílias pobres, isto é, famílias onde nenhum dos pais têm
um emprego estável.
Por último, verificamos igualmente que nem todas as salas de aula estão equipadas
adequadamente às necessidades do processo de ensino e que alguns alunos têm aulas
ao ar livre.
3. RESULTADOS DA PESQUISA
Vamos de seguida apresentar os resultados da pesquisa, realizada ao longo de três
anos, relativa à situação escolar dos alunos matriculados por ano lectivo a Escola
Árvore do Conhecimento Nº 84, na Província do Huambo.
Os dados estatísticos revelam que em relação ao primeiro ano lectivo em estudo
estavam matriculados 3.334 alunos e que destes 1.735 são género feminino; tiveram
sucesso escolar 2.177 alunos e destes 1.379 são do género feminino; tiveram
insucesso escolar 1.059 alunos, e destes 322 são do género feminino. Não houve
transferências. Desistiram 98 e destes 34 são do género feminino.
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Tabela 1. Situação escolar dos matriculados no 1º ano lectivo em estudo
Alunos
Matriculados
Aprovados
Reprovados
Transferidos
Desistidos
Classe
MF
F
MF
F
MF
F
INICIAÇÃO
367
0
__
___
0
0
372
0
___
___
0
0
350
103
___
___
0
0
322
0
___
____
15
15
367
92
___
___
0
0
199
55
___
___
0
0
200
72
___
___
83
19
TOTAL
2.177
322
___
____
98
34
Tabela 2. Situação escolar dos matriculados no 2º ano lectivo em estudo
Alunos
Matriculados
Aprovados
Reprovados
Transferidos
Desistidos
Classe
MF
MF
F
F
MF
F
MF
F
INICIAÇÃO
370
367
152
0
__
___
3
0
476
272
211
20
2
2
0
0
500
313
237
53
___
___
0
0
548
248
150
145
___
____
0
0
577
347
224
100
___
___
0
0
398
285
145
54
___
___
0
0
480
288
175
110
10
10
0
0
TOTAL
3349
2220
1295
482
12
12
3
0
No segundo ano lectivo em estudo os dados estatísticos revelam que estavam
matriculados 3.349 alunos e destes 1.788 são do género feminino; tiveram sucesso
escolar 2.220 alunos e destes 1.295 são do género feminino; tiveram insucesso escolar
1.142 alunos e destes 482 são do género feminino. Houve duas transferências de duas
meninas. Desistiram três rapazes.
Tabela 3. Situação escolar dos matriculados no 3º ano lectivo em estudo
Alunos
Matriculados
Aprovados
Reprovados
Transferidos
Desistidos
Classe
MF
MF
F
MF
F
MF
F
MF
F
INICIAÇÃO
372
372
152
0
0
__
___
0
0
472
370
200
100
32
___
___
2
1
507
297
197
200
71
___
___
10
7
546
339
183
183
100
___
____
24
12
573
425
300
148
14
___
___
0
0
396
277
116
119
103
___
___
0
0
482
300
125
89
75
___
___
93
41
TOTAL
3348
2380
1273
839
395
___
____
129
54
No terceiro ano lectivo em estudo os dados estatísticos revelam que estavam
matriculados 3.348 alunos e destes 1.729 são do género feminino; tiveram sucesso
escolar 2.380 alunos e destes 1273 são do género feminino; tiveram insucesso escolar
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839 alunos e destes 395 são do género feminino. Não houve transferência. Desistiram
129 alunos e destes 54 são do género feminino.
Apresentados os resultados dos anos analisados, os mesmos parecem apontar para o
insucesso escolar. De seguida vamos prosseguir a nossa reflexão com a análise e
discussão dos dados.
4. ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS DADOS
Nas respostas obtidas aos inquiridos por questionário bem como aos entrevistados,
anotamos que os principais fatores do insucesso escolar mencionados foram i) o
número elevado de alunos nas salas de aulas; ii) falta de condições nas salas de aula;
iii) as dificuldades económicas dos pais; e iv) as aulas ao ar livre.
Quando foram questionados durante as entrevistas acerca das medidas que podiam
ser implementadas com vista à mitigação do insucesso escolar os participantes
afirmaram que: i) é urgente aumentar o número de salas e contratar mais professores
com vista a acabar com as aulas ao ar livre; ii) os professores devem implementar um
sistema que permita dar atenção às necessidades individuais de cada aluno; iii) a
escola deve promover mais condições de recreação aos alunos; iv) o governo deve
implementar a merenda escolar; v) o ministério da educação deve considerar a
possibilidade de a monodocência poder ser extinta a partir da e classes, que
muitos professores não conseguem dominar todas a disciplinas.
O subsistema de ensino em Angola, como vimos atrás, parece ainda não conseguir
acompanhar adequadamente as necessidades de infraestruturas que permitam ter as
salas de aula suficientes e que garantam ao professor condições para dar a atenção
individual às necessidades de cada aluno. Este é o caso da Escola Primária em estudo,
onde o número de alunos por sala é elevado, por exemplo 70 alunos na iniciação e ao ar
livre numa só aula, contrariamente ao que deveria acontecer, mas esta é uma realidade
que se verifica em muitas partes do país.
Os dados da pesquisa revelam, tal como a literatura predominante, designadamente as
“Teoria dos Dotes Individuais e a Teoria do Handicap’’ ou Défice Sociocultural e
Teoria Socioinstitucional, que quando não se gratifica bem os professores, não
capacitação periódica, o colaboração entre a Escola e a família e quando não
um acompanhamento personalizado dos alunos, se verifica insucesso escolar.
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Ao contrário dos factores sublinhados e no contexto da pesquisa foi possível apurar
que ainda crianças a ter aulas em salas ao ar livre. Isso sugere que, de um lado, as
crianças nesse contexto desenvolvem uma rara habilidade de se concentrar, e por
outro lado, os professores demonstram que desenvolveram uma forte capacidade de
controlar um grupo enorme de crianças numa fase tão prematura.
Acresce ainda, como factores de insucesso escolar, as dificuldades socioeconómicas
das famílias que se reflectem na incapacidade de os pais garantirem aos filhos os
materiais necessários para as aulas, e o absentismo que pode colocar os alunos em
posição de desvantagem no âmbito do processo de ensino e aprendizagem.
Limites do estudo:
Este estudo foi feito em um contexto específico onde: i) insuficiência do número de
salas de aulas; ii) os alunos têm aulas ao ar livre; iii) os alunos vão sem materiais; iv) os
alunos vão sem tomar o pequeno almoço; iv) os professores tem de gerir salas com 70
ou mais alunos; v) os critérios de admissão dos professores nem sempre seguem os
padrões mínimos para o ensino primário, especificamente, por não serem dotados da
menor habilidade para lidar com crianças; vi) o absentismo é elevado; e vii) muitos dos
professores não detêm as habilidades de gestão da sala de aula, tratando os alunos de
forma inadequada. Por isso as constactações deste estudo devem ser compreendidas
no âmbito do contexto em que foi realizada a pesquisa.
Futuras linhas de pesquisa:
O estudo centrou-se em identificar os factores de insucesso escolar numa escola
primária no contexto de Angola. As constactações do estudo sugerem que as
condições socioeconómicas das famílias, as limitações de salas, os critérios de
admissão de professores no ensino primário, bem como a inexistência de um programa
de formação contínua, para minimizar o impacto de haver professores com poucas
habilidades de gerir uma sala de aula no ensino primário, são os principais factores do
insucesso escolar.
No entanto, durante a pesquisa várias questões chamaram a atenção que precisam ser
investigadas em futuros estudos, entre as quais destacam-se:
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a) A relação entre a insuficiência de salas de aula e o insucesso escolar, parece
derivar da ausência de planificação de infraestruturas educacionais que
acompanhem o desenvolvimento demográfico do País.
b) A definição de um conjunto de habilidades mínimas necessárias para ensinar
nas escolas primárias, bem como a definição de um número máximo de alunos
por sala de aula, devem estabelecidos pela Tutela.
c) A relação entre as dificuldades socioeconómicas das famílias e o insucesso
escolar indica que deva ser instituído, pelos órgãos competentes, mecanismo
de apoio às famílias que garantam a nutrição necessárias aos alunos
d) É preciso compreender como promover um ensino centrado no aluno num
contexto em que a sala de pode ter mais de setenta alunos.
e) A ausência de uma planificação de formação contínua para os professores do
ensino primário pode inabilitá-los para lidar com o fenómeno do insucesso
escolar, bem como de encontrarem estratégias pedagógicas que o resolvam.
f) O sucesso da relação Escola-Família parece estar intrinsecamente relacionado
com a capacidade de envolvimento da Famílias na organização e gestão escolar
bem assim da capacidade da Escola coaptar os encarregados de educação para
as atividades que programa.
CONCLUSÃO
O estudo identifica os factores do insucesso escolar em uma escola Primária da
Província do Huambo e permitiu identificar estratégias que podem transformar a
realidade educativa e social da escola estudada, com potencial de impacto positivo em
outras instituições.
A pesquisa revelou que os principais fatores do insucesso escolar na escola estudada
são a insuficiência do número de salas de aulas, os alunos com aulas ao ar livre, sem
materiais e sem tomar o pequeno-almoço, os professores a gerirem salas de aula com
70 ou mais alunos, selecionados para a função sem critérios de admissão e em
muitos casos não tem habilidade para lidar com crianças nem para gerir a sala de aula -
e um forte absentismo.
Como estratégias para o insucesso escolar o estudo identificou a necessidade de
aumentar o número salas de aula, definir um perfil para o professor primário, fixar
número máximo de alunos por sala de aula, criar mecanismo de apoio às famílias que
garantam a nutrição necessária aos alunos, planificar a formação contínua para os
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professores do ensino primário, melhorar relação família-escola e sua participação nas
atividades programadas.
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International License. Ao submeter o manuscrito o autor está ciente de que os direitos de autor passam
para a Revista Científica de Estudos Multidisciplinares do Planalto Central.
Recebido em 12 de Janeiro de 2024
Aceite em 8 de Novembro de 2024