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Escravizadas em Moçâmedes, 1855: Idades, Famílias, Trabalho e  
Resistência1  
Enslaved Females in Moçâmedes, 1855: Age, Families, Work, and Resistance  
Mujeres esclavizadas en Moçâmedes, 1855: Edades, familias, trabajo y resistencia.  
José C. Curto2  
York University, Canadá  
Resumo  
Este texto examina as vidas das escravizadas em Moçâmedes, Angola, em 1855, utilizando registos  
de arquivo para recuperar vozes frequentemente ignoradas na historiografia. Entre 850  
indivíduos escravizados, apenas 255 eram do sexo feminino, reflectindo o forte desequilíbrio de  
género que moldava as relações sociais e reforçava o controlo masculino. Embora a maioria das  
mulheres escravizadas estivesse em idade reprodutiva, a população escravizada não crescia por  
via da reprodução natural. A escassez de famílias estáveis e as duras condições desestimulavam a  
reprodução biológica, levando à dependência da importação de pessoas escravizadas. As  
estruturas familiares eram frágeis: existiam poucos casais oficialmente reconhecidos, enquanto  
as mães solteiras com filhos pequenos eram mais comuns. As crianças começavam geralmente a  
trabalhar cedo, o que limitava a coesão familiar a longo prazo. Apesar do seu número reduzido, as  
escravizadas desempenhavam papéis económicos essenciais, especialmente na agricultura, na  
colheita da urzela e no serviço doméstico, frequentemente em proporções semelhantes às dos  
homens. Este facto desafia as divisões tradicionais de trabalho baseadas no género. O texto  
destaca ainda a violência da escravidão, incluindo marcas físicas e o controlo forçado dos corpos.  
A resistência foi significativa: 39 casos de fuga foram registados entre as escravizadas. Muitas  
destas escapavam colectivamente, o que sugere formas organizadas e solidárias de resistência. De  
modo geral, o estudo revela tanto a exploração como a capacidade de acção das mulheres  
escravizadas numa sociedade esclavagista em desenvolvimento.  
1
Partes deste trabalho foram apresentadas na Universidade Agostinho Neto, em 17 de novembro de 2025 e no II  
Congresso Internacional em Ensino das Ciências, Instituto Superior de Ciências da Educação - Huíla, entre os dias 19  
e 21 de novembro de 2025. Agradeço a todos os participantes e colegas pelas suas perguntas, que melhoraram este  
trabalho. Gostaria também de agradecer, em especial, à Vanessa S. Oliveira por me ter levado a melhorar determinados  
conceitos. Embora nem todas as escravizadas abordadas neste artigo fossem mulheres (isto é, indivíduos que já tinham  
passado a puberdade), a grande maioria era-o. Sendo assim, o termo "mulher" será utilizado para todas as pessoas do  
sexo feminino, exceto quando indicado.  
2 PhD, Senior Scholar, Department of History.  
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Palavras-Chave: Moçâmedes, escravizadas, idades, famílias, trabalho, resistência  
Abstract  
This text examines the lives of enslaved females in Moçâmedes, Angola, in 1855, using archival  
records to recover voices often ignored in historiography. Of 850 enslaved individuals, only 255  
were females, reflecting a strong gender imbalance that shaped social relations and reinforced  
male control. Most females were of reproductive age, yet the enslaved population did not grow  
through natural means. The scarcity of stable families and harsh conditions discouraged  
biological reproduction, leading to reliance on the importation of enslaved people. Family  
structures were fragile: only a few officially recognized couples existed, while single mothers with  
young children were more common. Children typically entered labor early, limiting long-term  
family cohesion. Despite their smaller numbers, enslaved females played essential economic  
roles, especially in agriculture, urzela collection, and domestic service, often in proportions  
similar to men. This challenges traditional gender divisions of labor. The text also highlights the  
violence of slavery, including physical marks and forced control of bodies. Resistance was  
significant: 39 females were recorded as fugitives, many escaping collectively, suggesting  
organized and solidaristic forms of resistance. Overall, the study reveals both the exploitation and  
agency of enslaved women in a developing slave society.  
Keywords: Moçâmedes, enslaved females, age-groups, families, work, resistance  
Resumen  
Este texto investiga la vida de las mujeres esclavizadas en Moçâmedes, Angola, en 1855, utilizando  
documentos de archivo para recuperar voces que la historiografía ha tendido a silenciar. De las  
850 personas esclavizadas, solo 255 eran mujeres, lo que revela un marcado desequilibrio de  
género que configuraba las relaciones sociales y reforzaba el control masculino. Aunque la  
mayoría de las mujeres esclavizadas estaban en edad reproductiva, la población esclavizada no  
crecía principalmente por reproducción natural. La escasez de familias estables y las duras  
condiciones desalentaban la reproducción biológica, generando dependencia de la importación  
de esclavizados. Las estructuras familiares eran frágiles: eran poco comunes las parejas  
reconocidas oficialmente, mientras que las madres solteras con hijos pequeños eran más  
frecuentes. Los niños solían comenzar a trabajar a temprana edad, lo que limitaba la cohesión  
familiar a largo plazo. A pesar de su número reducido, las mujeres esclavizadas desempeñaban  
funciones económicas esenciales, especialmente en la agricultura, la cosecha y el servicio  
doméstico, a menudo en proporciones similares a las de los hombres. Este hecho cuestiona la  
tradicional división del trabajo por género. El texto también destaca la violencia de la esclavitud,  
incluyendo las marcas físicas y el control forzado de los cuerpos. La resistencia fue notable: se  
registraron 39 casos de fuga entre mujeres esclavizadas. Muchas de ellas escaparon  
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colectivamente, lo que sugiere formas de resistencia organizadas y solidarias. En síntesis, el  
estudio revela tanto la explotación como la capacidad de acción de las mujeres esclavizadas en  
una sociedad esclavista en desarrollo.  
Palabras clave: Moçâmedes, mujeres esclavizadas, edades, familias, trabajo, resistencia  
Imagem 1 – Moçâmedes, 1858. Fonte: Biblioteca da Sociedade de Geografia de Lisboa, Reservados 9-A-  
10, Costa de Angola.  
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INTRODUÇÃO  
A questão da componente feminina em qualquer aspecto do passado da colónia de Angola  
tem-se desenvolvido de forma desproporcional na historiografia relativa ao período  
anterior a 1900. As grandes figuras têm sempre atraído bastante atenção: Nzinga Mbandi  
Imagem 2: Registo de Escravos, Moçâmedes, 1855. Fonte: Arquivo Histórico Nacional (ANA), Luanda,  
Códice 2580, “Mossamedes, L[ivro] n[úmero] 1 de Registro de Escravos, 1855.  
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no século XVII,3 Kimpa Vita no século XVIII,4 Dona Ana Joaquina dos Santos e Silva no  
3
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moderna organizada por Patrick Graille e Laurent Quillerie com publicação em Bourges: Ganymede, 1993); João M.  
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história africana: metodologias e mitos – o estudo de caso da rainha Nzinga Mbandi”, Revista Cerrados 19 (2010),  
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XIX,5 assim como outras mulheres da elite entre o princípio do século XVI e os  
meados/fim do século XIX.6 As angolanas de “menor peso”, sejam elas livres, libertas ou  
Heywood, Njinga of Angola: Africa’s Warrior Queen. Cambridge: Harvard University Press, 2017; Mariana  
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Beatriz Ñsîmba Vita. 1ª edição, Aracaju, SE: Ancestre, 2021; Patrício Batsîkama, “Religião como espaço de  
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Revista  
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22  
(2021),  
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Religiosidades,  
Identidades  
e
Conexões  
Globais,  
2023,  
5
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Studies 3 (1996), pp. 284-297; Vanessa S. Oliveira, “Dona Ana Joaquina dos Santos e Silva: A Woman Merchant of  
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escravas, representando a grande maioria das mulheres, têm adquirido muito menos  
atenção histórica.7 Esta contribuição tem como foco o tema das mulheres escravizadas em  
Tauris, 2012, pp. 66–84; Vanessa S. Oliveira, “Gender, Foodstuff Production and Trade in Late-Eighteenth Century  
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7
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Degredadas para Angola no Século XIX (1865–1898)”, Aálise Social 151/152 (1999), pp. 555–572; Linda M.  
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e o Estudo da Representação do Feminino em Luanda,” Jill R. Dias and Rosa Cruz e Silva, orgs., Construíndo o  
passado angolano: As fontes e a sua interpretação: Actas do II Seminário Internacional sobre a História de Angola.  
Lisbon: Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 2000, pp. 583–596; Selma  
Pantoja, “A Dimensão Atlântica das Quitandeiras,” in Júnia F. Furtado, org., Diálogos Oceânicos: Minas Gerais e as  
novas abordagens para uma história do Império Ultramarino Português. Belo Horizonte: UFMG, 2001, pp. 45–67;  
José C. Curto, “‘As if from a Free Womb’: Baptismal Manumissions in the Conceição Parish, Luanda, 1778–1807,”  
Portuguese Studies Review 10 (2002): 26–57; José C. Curto, “The Story of Nbena, 1817-1820: Unlawful Enslavement  
and the Concept of 'Original Freedom' in Angola”, in Paul E. Lovejoy and David V. Trotman, orgs., Trans-Atlantic  
Dimensions of Ethnicity in the African Diaspora. London: Continuum, 2003, pp. 43-64; Selma Pantoja, “Women’s  
Work in the Fairs and Markets of Luanda,” in Clara Sarmento, org., Women in the Portuguese Colonial Empire: The  
Theatre of Shadows. Newcastle upon Tyne: Cambridge Scholars Publishing, 2008, pp. 81–94; Paul E. Lovejoy, “Les  
origines de Catherine Mulgrave Zimmermann: considérations méthodologiques”, Cahiers des Anneaux de la Mémoire  
14 (2011), pp. 247-263; Mariana P. Candido, “Strategies for Social Mobility. Liaisons between Foreign Men and  
Enslaved Women in Benguela, ca. 1770–1850”, in Gwyn Campbell and Elizabeth Elbourne, orgs., Sex, Power, and  
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Moçâmedes durante um só ano – 1855. Aumenta assim o nosso conhecimento sobre  
algumas dessas outras mulheres angolanas,8 tornando-as mais visíveis e recuperando, de  
certa maneira, a voz que lhes foi silenciada pela violência da escravidão.  
Para investigar e analisar parte dessas outras mulheres angolanas, neste caso as  
escravizadas em Moçâmedes durante 1855, vamos utilizar um documento que,  
recentemente, tem adquirido alguma relevância na reconstrução histórica desta vila nos  
meados do século XIX. Trata-se do códice 2580, Mossamedes, Livro N.º 1 de Registo de  
Escravos, que se encontra no Arquivo Histórico Nacional (ANA), Luanda. Este livro lista  
um total de 850 escravizados, numerados consecutivamente, em Moçâmedes no ano de  
1855: destes, 595 (70%) eram do sexo masculino e 255 (30%) do feminino. É sobre este  
último número de pessoas escravizadas que incidirá a análise.  
Como é agora conhecido, os Registos de Escravos depositados no AHA fornecem  
uma lista impressionante de informações sobre os escravizados nas cidades, vilas e  
distritos a que se referem.9 Todavia, no caso do Códice 2580, vamos concentrar-nos na  
componente feminina dos escravizados em Moçâmedes no ano de 1855, focando quatro  
Slavery. Athens: Ohio University Press, 2014, pp. 272–288; Renata Jesus da Costa, “Colonialismo e gênero entre os  
Ovimbundu: relações de poder no Bailundo (1880-1930)”, Tese de doutoramento, Universidade de Brasília, 2014;  
Selma Pantoja, et. al., orgs. Angola e as angolanas. Memória, sociedade e cultura. São Paulo: Intermeios, 2016;  
Vanessa S. Oliveira, “Donas, escravas e pretas livres em Luanda (séc. XIX),” Estudos Ibero-Americanos 44 (2018),  
pp. 447-456; Mariana P. Candido, “Women in Angola”, Oxford Research Encyclopedia of African History, 2018,  
https://doi.org/10.1093/acrefore/9780190277734.013.569, acesso 10 de dez., 2025; Tracy Lopes, “Free, Enslaved, and  
“Liberated” Women Imprisoned in Luanda, 1857 to 1884”, Historiæ 10 (2019), pp. 67-84; Mariana P. Candido,  
“Understanding African Women’s Access to Landed Property in Nineteenth Century Benguela”, Canadian Journal  
of African Studies 54 (2020), pp. 395-417; Vanessa S. Oliveira, “Slave Labor and the Vulnerability of Enslaved  
Women in Mid-Nineteenth Century Luanda”, in José C. Curto, org. (with the assistance of Maryann Buri), New  
Perspectives on Angola: From Slaving Colony to Nation State. Peterborough: Baywolf Press / Éditions Baywolf, 2021,  
pp. 145-166; Dorothée Boulanger, "Centring Women or Rehabilitating Masculinity? Gender, Literature and Late.  
Nineteenth Century Angola", in Francisco Bethencourt, org., Gendering the Portuguese-Speaking World: From the  
Middle Ages to the Present. Boston: Brill, 2021, pp. 179-198; José C. Curto, “‘That Abominable Practice’: Child  
Marriage in Two Slaving Ports (Luanda and Benguela), c. 1797 – 1846”, International Journal of African Historical  
Studies 54 (2021), 129-147; Mariana P. Candido and Vanessa S. Oliveira, “The Status of Enslaved Women in West  
Central Africa, 1800–1830”, African Economic History 49 (2021), pp. 127-153; Vanessa S. Oliveira, “Mulheres  
escravizadas e resistência à escravidão em Luanda no século XIX”, Portuguese Studies Review 30 (2022), pp. 91-112;  
Renata Jesus da Costa Ehrl, “Mulheres Ovimbundu e poder local no Bailundo - 1880 e 1930”, Afro-Ásia 71 (2025),  
pp. 1-36. Notar, mesmo assim, a presença contínua das elites nesta lista das “outras”.  
8 Utilizo aqui este termo, como se pode deduzir, muito para além das “Outras” oriundas das elites africanas que são  
trazidas à luz por Isabel Castro Henriques, “As outras africanas: As reais e as inventadas”, Oceanos 21 (1995), pp.  
53–63.  
9 Para Luanda e seu imediato interior, ver Vanessa S. Oliveira, https://slaveregisters.org/about.php. Para Moçâmedes,  
ver os estudos referenciados na nota seguinte.  
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subtemas que, como veremos mais adiante, possuem uma certa sincronia: idade,  
organização familiar, actividades económicas e, finalmente, resistência contra a perda da  
liberdade.10  
Em 1855, Moçâmedes era ainda uma aglomeração de fronteira, recém-fundada em  
1839-1840 por gente e recursos enviados desde Luanda e de Benguela para abrir uma  
terceira via de penetração comercial no sul de Angola. Embora a sua população tivesse  
aumentado com a chegada de quase 300 luso-brasileiros em 1849-1850, foi a importação  
posterior de mão de obra escravizada que impulsou decisivamente o seu crescimento  
demográfico. Não possuímos dados sobre a população de Moçâmedes em 1855, data em  
que o seu crescimento lhe valeu a designação de “vila”. Sabemos que, no final do ano  
anterior, contava com 940 habitantes, entre os quais se encontravam 461 escravizados  
(ou 49% do total).11 Pelos fins de 1856, esses números aumentaram para 958 residentes,  
incluindo 632 cativos (ou 66% do total).12 Assim, os 850 escravizados listados no códice  
Mossamedes, Livro_N.º 1 de Registro de Escravos, em 1855, faziam parte de um  
impressionante aumento da população escravizada,13 transformando Moçâmedes numa  
verdadeira vila escravocrata.14  
Idades, famílias, trabalho e resistência das escravizadas  
As pessoas escravizadas neste processo possuíam características demográficas  
bem particulares, visto que Moçâmedes era uma aglomeração urbana recentemente  
fundada, em plena expansão e, por isso mesmo, com necessidades agudas de um certo  
tipo de mão de obra. Em 1855, com uma crescente dependência do trabalho escravo, a  
vila já demonstrava uma preferência nítida por escravizados do sexo masculino. As  
10 Para outros estudos baseados, em parte ou totalmente, neste documento, ver: José C. Curto and Arshad Desai, “The  
Early Demography of Moçamedes, Angola, 1839-1869: A Preliminary Analysis”, Revista HISTORIÆ 10 (2019), pp.  
11-32, https://periodicos.furg.br/hist/article/view/12040/7796; José C. Curto, “Uma Vila Esclavagista: Proprietários e  
seus Cativos em Moçâmedes, 1855”, Revista Brasileira de História 43/93 (2023), pp. 225-269. DOI: 10.1590/1806-  
93472023v43n93-12; José C. Curto, “Escravos/as e suas Ocupações em Moçâmedes, 1854-1860”, Afro-Ásia 71  
(2025), pp. 1-26.  
11 “Extracto do um Officio do Governador Interino de Mossamedes, o Capitão F. da Costa Leal, dirigido ao Ministerio  
da Marinha e Ultramar em data de 3 de Janeiro de 1855”, in Annaes do Conselho Ultramarino, Parte Official, 1857,  
p. 200.  
12 Ver o resumo populacional do final de 1856 em A. da Silva Rego (org.), “Annaes do Município de Mossamedes”,  
Studia 38 (1974), p. 37.  
13  
Como veremos mais adiante, nem todos os escravizados listados neste documento residiam efetivamente em  
Moçâmedes durante 1855.  
14 David Birmingham, “Slave City: Luanda through German Eyes”, Portuguese Studies Review 19 (2011). pp. 77-92;  
Curto, “Uma Vila Esclavagista”.  
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mulheres escravizadas eram, correspondentemente, relativamente poucas. Neste  
universo de escravizados, como foi já apontado acima, existiam somente três mulheres  
para cada sete homens. Tal desequilíbrio deveria ter resultado numa competição intensa  
pelas escravizadas. Isto não só da parte de homens escravizados, mas também da parte  
dos homens livres que também tinham um reduzido número de mulheres livres ao seu  
dispor. Ora como a maioria dos proprietários de escravizados eram homens,15 estes  
senhores devem ter exercido um controlo enorme sobre as poucas mulheres escravizadas  
existentes. 16  
Além disso, a componente feminina dos escravizados em Moçâmedes durante  
1855 não se encontrava distribuída em grupos etários normais. Das 255 mulheres servis  
listadas no códice Mossamedes, Livro_N.º 1 de Registro de Escravos, não possuímos  
informação sobre a idade de 42 delas. Para as outras 213, o seu grupo etário está  
discriminado no Gráfico 1. Como se pode ver, as mulheres escravizadas encontravam-se  
largamente concentradas em certos grupos etários. Existiam poucas escravizadas com 10  
15 Curto, “Escravos/as e suas Ocupações em Moçâmedes”; Curto, “Uma Vila Esclavagista”.  
16 Ver nossa discussão mais adiante sobre a constituição de famílias escravizadas.  
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ou menos anos de idade: isto indica que a sociedade escravocrata que se desenvolveu  
rapidamente em Moçâmedes depois do final da década de 1830 não era capaz de se auto-  
reproduzir. Ao mesmo tempo, esta também era uma sociedade onde existiam poucas  
mulheres escravizadas idosas, neste caso com 31 ou mais anos de idade. A grande maioria  
encontrava-se entre as jovens e as idosas: 42 tinham entre 11 e 15 anos de idade; 67 tinham  
entre 16 e 20 anos de idade; 31 tinham entre 21 e 25 anos de idade; e outras 28 tinham  
entre 26 e 30 anos de idade. Ora, para este género, estes seriam os grupos etários com  
maior potencial de reprodução. Mas isso não aconteceu. Em 1855, uns quinze anos depois  
do começo do desenvolvimento de Moçâmedes (de simples estabelecimento comercial a  
vila), existiam somente 37 escravizados e 23 escravizadas com 10 anos ou menos de idade.  
Embora a grande maioria das escravizadas estivesse apta a reproduzir, a única maneira  
de aumentar a população escravizada de Moçâmedes era através da importação de mais  
cativos das zonas abastecedoras: os arredores da vila, o planalto central e outras zonas do  
que viria a ser Angola.17  
Um factor que contribuía para a não reprodução biológica dos escravizados foi a  
quase total ausência de famílias estáveis. Efectivamente, famílias escravizadas raramente  
aparecem listadas no registo de 1855. Apenas quatro casais e, quando os havia, os seus  
descendentes, estavam registados.  
Domingas [n.º 733],18 com 28 anos, natural do Bihé, e trabalhando na agricultura,  
constituía um destes casais com o seu parceiro Cortez Caraoutu Antonio [n.º 732], um  
Cabunda com 30 anos de idade. Enquanto ela era descrita como “baixa” e “muito retinta”,  
ele era de “estatura regular”, “barbado” e com “olhos muitos vivos”. O nome completo de  
Cortez, algo longo, era certamente incomum para um escravizado. Trabalhava como  
pedreiro. O nível de sua especialização (aprendiz, oficial ou mestre) não se conhece.  
17 Um dos primeiros luso-brasileiros a comprar escravos foi o chefe da primeira expedição que saiu de Pernambuco  
em direção do sul de Angola. Enquanto em Luanda, no final de agosto e início de setembro de 1849, Bernardino Freire  
de Figueiredo Abreu e Castro comprou “17 escravos que levo para” Moçâmedes: Arquivo Histórico Ultramarino  
(AHU), Secretaria de Estado da Marinha e Ultramar, 1E, Maço 1838-1864, Sobre a Vinda de Colonos de Pernambuco  
para a Colonia de Mossamedes, Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro para Ministro e Secretario d’Estado  
dos Negocios da Marinha e Ultramar, Luanda, 4 de setembro, 1849. Cinco anos mais tarde, esta mesma pessoa  
informava demais que “alguns colonos já têm comprado escravos com o produto da agricultura”: Bernardino Freire  
de Figueiredo Abreu e Castro, AHU, “Relatório sobre Mossamedes” em 5 de Julho de 1854, Annaes do Conselho  
Ultramarino (parte não official), Fevereiro de 1854 a Dezembro de 1858. Lisboa, Imprensa Nacional, 1867, p. 153.  
Como explicou o padre Duparquet em 1862, Gérard Vieira, org., Le Père Duparquet: lettres et écrits, Tome II. Paris:  
Karthala, 2013, p. 434, os luso-brasileiros “trouvent avantage a venir habiter ce pays parce qu’ils peuvent se procurer  
a bien meilleur compte qu’au Brésil les esclaves dont ils ont besoins pour cultiver le coton et la canne a sucre”.  
18  
Para aliviar o peso das notas de rodapé, passo daqui em diante a referir-me a indivíduos escravizados específicos  
pelo seu número no Registo em foco. Seus nomes, origens e atributos físicos estão reproduzidos exatamente como se  
encontram no referido documento.  
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Todavia, a ocupação em que Cortez trabalhava era, então, uma das mais importantes em  
Moçâmedes, o que provavelmente lhe permitia não só ter uma esposa, mas igualmente ou  
até mais importante, também constituir família. Domingas e Cortez tinham três filhos:  
Pedro [n.º 734] com 5 anos de idade, Justino [n.º 735] com 3 anos, e Domingas [n.º 736],  
com 1 ano – todos nascidos em Moçâmedes, assim como todos “reforçado(s)” e com  
“olhos muitos vivos”. Assim sendo, Cortez, um entre uma dúzia de pedreiros escravizados  
nesta vila,19 poderia ser oficial (ou mesmo mestre), o que lhe conferia uma diária mais  
alta do que a de simples aprendiz.20  
Um segundo casal era constituído por Maria [n.º 738], natural de Cassange, com  
26 anos de idade, e também laborando na agricultura, e por João Francisco [n.º 737], com  
32 anos de idade e natural do Congo. Enquanto ele era descrito, entre outras  
características, como “baixo”, “reforçado” e “triste”, ela era “alta”, “magra”, com “rosto  
pequeno” e “olhos vivos”. Assim como Cortez, João Francisco trabalhava como pedreiro.  
Embora o seu nível de especialização também não tenha sido divulgado pelo documento  
em foco, a sua ocupação muito provavelmente permitiu-lhe atrair uma parceira e  
constituir família. Em 1855, Maria e João Francisco eram pais de Joaquim [n.º 739],  
natural de Moçâmedes, com 3 anos de idade, “reforçado” e também com “olhos vivos”.  
Um terceiro casal era formado por Roza [n.º 741], com 22 anos de idade, natural  
de Mutembo, e trabalhando na agricultura, e por António Manuel [n.º 740], com 35 anos  
de idade e originalmente do Bengo. Ela era descrita como de “estatura regular”,  
“reforçada” e com “olhos vivos”. Em contrapartida, ele era “preto”,21 “baixo”, “magro”,  
mas também com “olhos vivos”. A ocupação de António Manuel era de carpinteiro, outra  
profissão importante em Moçâmedes nos meados da década de 1850.22 Assim como Maria  
e João Francisco, Roza e o seu parceiro tinham um filho: Bernardino [n.º 742], nascido  
em Moçâmedes, com 2 anos de idade, mas já “robusto” e com “olhos vivos”.  
Finalmente, o último casal era composto por Maria [n.º 756], com 24 anos de  
idade, natural da Cunhama, e laborando na agricultura, e por Pedro [n.º 755]. Enquanto  
ela era “baixa”, “grosa”, de “feições regulares” e com a marca “M nos braços”, ele era de  
19 Ver Tabela 2, assim como Curto, “Escravos/as e suas Ocupações em Moçâmedes”.  
20 Poucas semanas após a chegada a Moçâmedes do primeiro contingente de refugiados luso-brasileiros, o valor local  
de um cativo, independentemente do seu sexo, com oficio era de 110$000 réis, enquanto o de um escravizado sem  
oficio era de apenas 50$000 réis: AHU, Ultramar, Caixa MGI-6 (779) “Mappa dos Escravos na provincia d’Angola e  
suas Dependencias, 18 Agosto, 1849. Suas diárias refletiam essa valorização.  
21 Este é o único de entre os constituintes dos casais a ser identificado por sua cor.  
22 Ver Tabela 1, assim como Curto, “Escravos/as e suas Ocupações em Moçâmedes”.  
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“estatura regular”, “reforçado” e com “olhos vivos”. Com origem em Angang e com 27 anos  
de idade, Pedro trabalhava como caseiro, cuidando dos afazeres domésticos e da  
segurança da casa do seu dono. Era, portanto, pessoa de confiança do seu amo. Maria e  
Pedro (ainda) não tinham filhos.  
Estes quatro casais tinham celebrado os seus matrimónios na tradição católica.  
Demais, todos os seus constituintes eram propriedade de uma só pessoa: Bernardino  
Freire de Figueiredo Castro e Abreu. Esta figura é frequentemente elogiada na  
historiografia em vários contextos. É, por exemplo, referenciado como o fundador da  
colónia de Moçâmedes. Todavia, antes da chegada de Bernardino Freire a esta terra a  
partir de Pernambuco em meados de 1849, já lá existiam vários estabelecimentos  
comerciais, assim como um destacamento militar, com brancos, mulatos e pretos,  
incluindo livres, libertos e escravizados, enviados das suas sedes em Luanda e em  
Benguela.23 Por outras palavras, Moçâmedes foi fundada por gente da colónia de Angola  
e não por luso-brasileiros.24 Do mesmo modo, Bernardino Freire é largamente elogiado  
na historiografia como sendo abolicionista. Mas, neste contexto, é absolutamente  
necessário lembrar que este indivíduo foi, em 1855, o quarto mais importante proprietário  
de escravizados em Moçâmedes: possuía 57 trabalhadores escravizados, 34 homens e 23  
mulheres.25 Assim sendo, o facto de que foi o único dos proprietários de carne humana a  
encorajar a constituição de casais via matrimónios celebrados na tradição católica pode  
muito bem ser interpretado não como um acto benevolente, mas como um incentivo para  
manter os seus outros cativos, 30 homens e 19 mulheres, sob um controlo mais eficaz.  
Se, em 1855, poucos casais legalmente constituídos existiam entre os escravizados  
que residiam em Moçâmedes, algo relativamente mais comum eram famílias  
monoparentais, formadas por mães de um ou mais filhos de tenra idade.26 Maria [n.º  
23 De acordo com Alfredo de A. Felner, org., Angola: Apontamentos Sobre a Colonização dos Planaltos e Litoral do  
Sul de Angola, Documentos. Lisboa: Agência-Geral das Colonias, 1940, 3 Vols., I: 16, existiam em Moçâmedes  
(algures na década de 1840) nada menos que “120 escravos masculinos e 310 femininos, na maioria trazidos para o  
sul pelos colonos, ou mandados pelo Govêrno”.  
24 Curto and Desai, “The Early Demography of Moçamedes’; Curto, “Uma Vila Esclavagista”; Curto, “Escravos/as e  
suas Ocupações em Moçâmedes”.  
25 Curto, “Uma Vila Esclavagista”. Como vimos atrás, Abreu e Castro foi um dos primeiros luso-brasileiros a comprar  
escravizados para desenvolver seus sonhos de proprietário de plantações em Moçâmedes.  
26 É importante de notar que 8 crianças, com 5 anos de idade ou menos, não tinham sua mãe (ou pai) registado e, por  
isso, eram presumivelmente órfãs: Francisco (n.º 817), 1 ano de idade, com “rosto oval (e) olhos vivos”; nascido em  
Jao; Bernardo (n.º 818), 2 anos de idade, “reforçado, (com) rosto oval (e) olhos vivos”, natural de Moçâmedes; Delfina  
(n.º 594), 2 anos de idade, nascida em Moçâmedes; Barbara (n.º 729), 2 anos de idade, “cara chica, braços muito  
grosos, nariz muito chato (e) olhos vivos”, natural de Moçâmedes; Fermino (n.º 661), 3 anos de idade, “grosso, rosto  
comprido, retinto, olhos vivos, (e) testa muito alta”, original de Luanda; Bento (n.º 497), 3 anos de idade, “rosto oval,  
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486] com 32 anos de idade e natural da Himba, caracterizada como de “altura regular,  
magra, retinta, rosto oval, olhos pequenos e amortecidos”, era mãe de Gertrude [n.º 488)  
com somente 1 mês, “fula” e com “olhos grandes” e de Leonor [n.º 487] com 2 anos de  
idade, “rosto oval, muito retinta, (e) olhos muito vivos”. Carlota [n.º 524], “alta, grossa,  
rosto oval, alguns signaes de bexigas, olhos muito vivos, (e) feições regulares”, mulher de  
20 anos e com origem no Nano, tinha uma filha, Juliana [n.º 526], “fula”, com apenas 2  
meses. Joana [n.º 9], natural do Bihe, 29 anos de idade e descrita como “baixa, reforçada  
... marca W sobre o peito esquerdo”, era mãe de Maria [n.º 10], “bastante fula”, com  
somente 8 meses. Outra Maria [n.º 590], “alta, grossa, rosto comprido, muito fula, olhos  
pequenos e vivos, (e) carimbo no braço direito que se não conhece”, com 30 anos de idade  
e natural da Huila, era mãe de Joaquim [n.º 591], também com somente 8 meses, “rosto  
comprido, olhos pequenos, (e) muito fulo”. Julia [n.º 640], natural do Nano, com 24 anos  
de idade, “alta, grossa, rosto redondo, olhos vivos, (e) IDA nos peitos”, era mãe de  
Domingos [n.º 641], outro menino com 8 meses, “rosto oval, olhos muito vivos, (e) testa  
alta. Anna [n.º 743], com 28 anos, natural de Cassange, de “estatura regular”, mas “triste,”  
era por sua vez mãe de Florencio [n.º 744), criança com 2 anos de idade, “afinado (e) olhos  
vivos”. Faustina [n.º 752], caracterizada como de “estatura grosseira, regular, (e) M nos  
peitos”, com 27 anos de idade e natural da Quissama, era mãe de Agostinho [n.º 753]  
também com 2 anos de idade, “gordo (e) rosto comprido”. Maria [n.º 483), natural da  
Himba, com 25 anos de idade, “alta, grossa, rosto oval, retinto, olhos pequenos e  
amortecidos”, era mãe de Joaquim [n.º 484], com 6 anos de idade, “altura regular, retinto,  
rosto oval, olhos muito vivos”. E, finalmente, Candida [n.º 498], 40 anos de idade e  
natural do Bihe, “alta, magra, retinta, rosto comprido, olhos amortecidos, B no braço  
direito e peito esquerdo”, era mãe de Antonio [n.º 499], com 7 anos de idade, “alto, magro,  
rosto oval, retinto, (e) olhos pequenos”. Toda essa progenitura, um total de 9 meninos/as,  
nasceu em Moçâmedes.  
Outras crianças que se encontravam em famílias monoparentais chefiadas pelas  
suas mães tinham nascido fora de Moçâmedes. Maria [n.º 565], jovem mulher de 18 anos,  
natural de Novo Redondo, dita “alta, grossa, (com) rosto oval, olhos vivos, N nos peitos,”  
era mãe de Henriqueta [n.º 566], com apenas 1 ano de idade, “rosto comprido e cheio (e)  
olhos vivos”, e natural de Novo Redondo. Joaquina [n.º 579], natural do Libolo, com 30  
anos de idade, “baixa, grossa, rosto comprido, fula, olhos vivos, (com) carimbo no braço  
retinto, olhos muito vivos, (e) bonitas feições”, nascido em Moçâmedes; Vicencia (n.º 269), 4 anos de idade, “rosto  
comprido, fula, (e com) as pernas arquadas”, natural da Huila; Benedito (n.º 236), 5 anos de idade, “rosto comprido,  
feições regulares, (mas) cego do olho direito”, original dos Gambos; Maria (n.º 819), 5 anos de idade, “reforçada,  
rosto oval, (e) olhos amortecidos”, nascida em Moçâmedes, Não sabemos quem cuidava destas crianças, nem como  
foram cuidadas.  
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e no peito esquerdo”, era mãe de Carolina [n.º 580], também com 1 ano de idade, nascida  
em Luanda e descrita como de “rosto oval, retinta, olhos pequenos e vivos”. Julio [n.º 182]  
com 1 ano de idade e natural de Benguela, era “filho da preta Marianna”, mulher “magra  
(e de) olhos negros”com 24 anos de idade e natural de Catumbela. Margarida [n.º 190],  
natural do Nano, com 40 anos de idade e, portanto, já senhora idosa, mas “alta, magra,  
(e) feições regulares”, era mãe de Amelia, nascida em Benguella, com 2 anos de idade.  
Catherina [n.º 47], caracterizada como “alta, gorda, muito retinta, rosto comprido, testa  
alta, olhos muito pequenos, nariz e boca regular”, com 20 anos de idade e natural dos  
Gambos, era mãe de Joana [n.º 48], com origem nos Gambos, 3 anos de idade, “rosto  
comprido, muito retinta, olhos pequenos, nariz e boca pequena”. João Macaco [n.º 50],  
com 4 anos de idade, “testa alta, nariz e boca pequena” e nascido em Mucimba, era filho  
de Xinguba [n.º 49], de 25 anos de idade, “altura regular, gorda, cara pequena, olhos  
pequenos, falta de um dente da frente no queixo superior e dois do inferior” e também  
natural de Mucimba. Dolinda [n.º 473], natural dos Gambos, com 7 anos de idade, “alta,  
magra, rosto comprido, olhos pequenos e vivos”, era filha de Roza [n.º 472], “retinta, alta,  
grossa, rosto oval, olhos grandes”, com 28 anos de idade e nascida no Humbe.  
Os filhos de tenra idade vivendo com suas progenitoras, nascidos em Moçâmedes  
ou em outros lugares, não podiam contar com a presença do pai no lar. Essas chefes de  
famílias monoparentais deviam assim assumir, sozinhas, a dupla responsabilidade de  
cuidar dos seus filhos/as e de trabalhar para os sustentar. É interessante notar que  
nenhuma escravizada chefiava família com filhos maiores de 7 anos. Esta terá sido, então,  
a idade limite entre um jovem improdutivo dependente da sua mãe e um que, a partir de  
então, estava apto para trabalhar?27 Numa sociedade escravagista como esta, a não  
produtividade das crianças parece ter sido também algo que levava os senhores de carne  
humana a não encorajar a reprodução biológica.28  
O trabalho das escravizadas em Moçâmedes nem sempre foi visível durante a  
década de 1850, como se pode notar em informação oficial sobre ocupações oferecida em  
vários documentos (ver Tabela 1). Os dados registados no códice Mossamedes, Livro_N.º  
1 de Registro de Escravos, contribuem significativamente para corrigir tal lacuna.  
Efectivamente, em 1855, as 198 cativas existentes em Moçâmedes encontravam-se  
concentradas numa dúzia de ofícios (ver Tabela 2). Maria [n.º 824], natural de  
Quilengues, com 13 anos de idade, “alta, reforçada, rosto oval, olhos vivos, beiços grossos,  
27  
Vanessa S. Oliveira, “Experiences of Enslaved Children in Luanda, 1850-1869”, Genealogy 8 (2024), pp. 1-13,  
informa que crianças com 7 ou menos anos de idade trabalhavam na capital de Angola durante o mesmo período.  
28 É impossível, desde os dados oferecidos pelo documento aqui em foco, determinar quantos casais “informais” de  
escravizados poderiam existir então em Moçâmedes.  
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G (dentro de um triângulo) nos peitos e muitas cicatrizes sobre o peito junto ao hombro  
direito”, era engomadeira. Virginia [n.º 642], “alta, grossa, olhos vivos, (e) fula”, natural  
do Bailundo com 14 anos de idade, assim como Mariana [n.º 820], natural dos Gambos  
com apenas 10 anos de idade, “altura regular, magra, rosto, comprido, (e) olhos  
amortecidos”, trabalhavam como costureiras.  
Um grupo de sete escravizadas eram lavadeiras: Florinda [n.º 241], natural de  
Quilembe, com 12 anos de idade, “estatura regular, reforçada, rosto oval, muito retinto,  
olhos pequenos, (e) feições regulares; Sophia [n.º 767], “estatura regular, bem parecida,  
olhos vivos e alegres”, natural do Lubollo, com 30 anos de idade; Maria [n.º 797], com 26  
anos de idade, natural de Quilengues, e “estatura regular grossa, (e carimbo) do lado  
direito”; Francisca [n.º 816], também natural de Quilengues e com 26 anos de idade, “alta  
grossa ... (e) olhos vivos”; Chinangalla [n.º 821], de “altura regular (e) grosa”, natural de  
Tiaca com 14 anos de idade; Catana [n.º 822], natural de Ganguela com 12 anos de idade,  
“altura regular, grossa, rosto comprido, olhos amortecidos, (e) V S nos peitos”; Paschoa  
[n.º 825], com 16 anos de idade, natural de Cumbe, “baixa, grossa, beiços muito grossos,  
... cicatriz, falta-lhe quatro dentes de cima”.  
Um outro grupo de sete escravizadas laborava como cozinheiras: Maria [n.º 240],  
“alta, rosto comprido, nariz pequeno, olhos amortecidos, (e) ... uma pequena cicatriz entre  
os peitos”, natural do Mocusso com 20 anos de idade; Carlota [n.º 394], natural do  
Conhama com 18 anos de idade, “alta, magra, retinta, rosto comprido, (e) olhos vivos;  
uma segunda Maria [n.º 719], com 24 anos de idade, também natural do Conhama, e “alta,  
magra, rosto comprido, olhos vivos, (e) feições regulares”; Teresa [n.º 759], de “estatura  
regular (e) reforçada”, natural de Cacullo com 16 anos de idade; Micaela [n.º 760], natural  
de Maquicombo com 17 anos de idade, “alta, reforçada, fula, (e) M no braço esquerdo”;  
Perpetua [n.º 792], de “altura regular, magra, olhos vivos, (e) tres salientes sob o peito  
esquerdo”, natural de Angola com 20 anos de idade; Rachel [n.º 823], natural de Mocupo,  
com 18 anos de idade, “alta, grossa, rosto oval, olhos vivos, (e) O nos braços”. Uma outra  
escravizada, Emilia [n.º 24], com 18 anos de idade, natural dos Gambos, “alta, reforçada,  
um pouco fula, olhos grandes, cara redonda, (e) nariz muito chato”, ocupava-se de lavar  
e engomar roupa. Estas ocupações teriam principalmente feito parte dos serviços  
oferecidos diariamente pelos senhores/as de escravos fora da “casa grande”.  
Dentro das habitações de seus amos, 53 outras cativas eram ou serventes ou então  
se ocupavam dos serviços domésticos. Fora deste universo doméstico, 44 escravizadas  
laboravam exclusivamente na colheita da urzela, enquanto 80 trabalhavam em vários  
setores da agricultura. Demais, duas escravizadas exerciam mais do que uma ocupação:  
Calunga [n.º 768], descrita como “baixa, gorda, e “tem de menos o braço direito que foi  
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amputado”,29 natural da Huila, com 30 anos de idade, empregava-se na agricultura e na  
função de pastora, enquanto Joanna [n.º 9], natural do Bihe, com 29 anos de idade,  
caracterizada como “baixa, reforçada, ... e (com) uma marca W sobre o peito esquerdo”,  
trabalhava ‘na agricultura e serviço doméstico”.  
Uma cativa em particular, por nome de Victoria [n.º 849], dita de “altura  
reforçada, olhos vivos, (e) cicatrizes nas costas”, natural de Ambaca com 25 anos de idade,  
tinha um ofício bem distinto: ama-de-leite! Assim, poucas escravizadas trabalhavam em  
mais do que uma ocupação. Ademais, nenhuma foi registada em 1855 como possuindo  
especialização em qualquer dos ofícios acima referidos. Isso dito, entre os principais  
ramos de trabalho em Moçâmedes, as cativas somente não participavam em ocupações  
do mar e da construção.30  
Embora em número bem inferior ao dos escravizados, assim como trabalhando em  
menos ofícios, as 189 cativas existentes em Moçâmedes durante 1855 exerciam cargos  
importantes nesta sociedade esclavagista de constituição recente. Mas pelo menos um  
outro ponto importante pode ser extraído dessa situação. Concentremos a nossa atenção  
nas principais actividades económicas então desenvolvidas nesta vila costeira tanto por  
homens como por mulheres (Tabela 2). Entre os 196 trabalhadores escravizados  
laborando exclusivamente no sector da agricultura, 80 (41%) eram mulheres.  
No caso dos 100 cativos trabalhando na apanha da urzela, 44 (44%) eram  
mulheres. E por último, mas não menos importante, entre os 110 cativos trabalhando  
como serventes ou empregados/as domésticos/as, 53 (48%) eram do sexo feminino. Ora,  
como estes três trabalhos representavam perto de 60% da totalidade das ocupações  
exercidas por cativos, podemos afirmar que as tarefas específicas de género nas  
economias africanas “tradicionais” simplesmente se rompiam com o tipo de escravidão  
29 Esta cativa fazia parte do grupo de aleijados dentro dos 850 escravizados: sobre este assunto, ver: Curto, “Uma vila  
esclavagista”, pp. 225-269.  
30 É surpreendente, no entanto, não se encontrar referência a uma ocupação tipicamente feminina em Angola colonial,  
especialmente nos meados do século XIX: a quitandeira. Ver, por exemplo, os trabalhos de Vanessa S. Oliveira  
listados nas notas 4 e 5 acima, assim como “Baskets, Stalls, and Shops: Experiences and Strategies of Women in Retail  
Sales in Nineteenth Century Luanda”, Canadian Journal of African Studies 54 (2020), 1-18. Para outros trabalhos  
sobre as quitandeiras, embora menos pormenorizados, ver: Ana de S. Santos, “Quitandas e quitandeiras de Luanda”,  
Boletim Instituto de Investigação Cientifica de Angola 4 (1967), 89-112; Pantoja, "A Dimensão Atlantica das  
Quitandeiras”; Selma Pantoja, "Women's Work in the Fairs and Markets of Luanda”, in Clara Sarmento, org., Women  
in the Portuguese Colonial Empire: The Theatre of Shadows. Newcastle upon Tyne: Cambridge Scholars Publishing,  
2008, 81-94. Seria possível que, em Moçâmedes, em 1855, todas fossem mulheres livres ou libertas? Ou talvez as  
quitandeiras servis estevam enterradas sob a categoria genérica de serventes escravizadas.  
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desenvolvido neste e em outros contextos urbanos costeiros, com os homens forçados a  
realizar uma série de atividades que antes eram restritas a mulheres.31  
Embora os escravizados fossem numericamente superiores às escravizadas, como  
se poderia esperar numa sociedade esclavagista de fronteira, as cativas participavam nas  
mais importantes actividades económicas em proporções quase iguais às dos homens não  
livres, incluindo na agricultura, na colheita da urzela e nos serviços domésticos. Desta  
forma, os estereótipos de género tradicionais relacionados com o trabalho foram  
quebrados.  
Uma vez escravizados, quase todos os cativos teriam procurado regressar ao seu  
estado anterior de liberdade.32 Entre os 850 cativos registados em Moçâmedes, em fins  
de 1855, um total de 112 (13,2%) encontrava-se em fuga, removendo, assim, uma parte do  
investimento de capital feito e do trabalho esperado pelos seus proprietários. Dentro  
deste número, 39, ou pouco mais de um terço, eram mulheres. Reflectindo o peso do sexo  
feminino na população escravizada em geral, isto quer dizer que a propensão das  
mulheres a fugir não era menor do que a dos homens.  
31  
Numa explicação genérica do impacto da vinda dos europeus (presumivelmente incluindo os luso-brasileiros ou  
“pernambucanos”) durante a segunda metade do século XIX, Nascimento argumenta que “[a] chegada dos europeus  
e sua agricultura de larga escala [...] e o trabalho escravo promoveram rupturas no universo da região, introduzindo  
novos hábitos, além da violência laboral como prática cotidiana. Mesmo a cultura extrativista sofreu modificações, a  
coleta da Urzela ou esponjas era feita de forma muito residual pelos povos locais. Para as mulheres de igual forma,  
muitas delas foram deslocadas do espaço da agricultura doméstica para trabalhos como os de lavadeiras,  
engomadeiras, cozinheiras, prostitutas [...] muitos dos ofícios criados (ou redimensionados) por conta da presença dos  
colonos europeus.” Ver: Washington Nascimento, Jogo nas sombras—realidades misturadas, estratégias de  
subjetivação e luta anticolonial em Angola (1901—1961), Rio de Janeiro: Vitória da Conquista: Edições UEBA, 2020,  
p. 159. Mas a outra vertente deste processo, homens escravizados forçados a trabalhar em ocupações pertencente  
anteriormente ao mundo feminino, assim como mulheres escravizadas forçadas a fazer trabalhos anteriormente ditos  
masculinos passa em silêncio. Como bem salientado por um observador da época, “Opinião do Snr. Bernardino Freire  
de Figueiredo Abreu e Castro”, Boletim Official de Angola, N.º 611, 13 de junho, 1857, p. 7, “os pretos, segundo seus  
uzos, não devem trabalhar na cultura, nem em serviços domésticos: sam as pretas. A profissão deles e caçar, pescar, e  
carregar”.  
32 William G. Clarence-Smith, “Runaway Slaves and Social Bandits in Southern Angola, 1875-1913”, in Gad Heuman,  
org., Out of the House of Bondage: Runa ways, Resistance and Marronage in Africa and the New World. London: F.  
Cass, 1986. pp. 23-33; Beatrix Heintze, “Asiles toujours menacés: fuites d’esclaves en Angola au XVIIe siècle”, in  
Katia de Queiros Mattoso, org., Esclavages: Histoire d’une diversité de l’océan Indien a l’Atlantique sud. Paris:  
L’Harmattan, 1997, pp. 101-122; Aida Freudenthal, “Os quilombos de Angola no século XIX: a recusa da escravidão”,  
Estudos Afro-Asiáticos 32 (1997), pp. 109-134; Roquinaldo A. Ferreira, “Escravidão e Revoltas de Escravos em  
Angola (1830-1860)”, Afro-Ásia 21-22 (1998), pp. 9-44; José C. Curto, “Resistência à escravidão na África: O caso dos  
escravos fugitivos recapturados em Angola, 1846–1876”, Afro-Ásia 33 (2005), pp. 67–86, (re)publicado sob o mesmo título  
em João José Reis and Carlos da Costa Silva Jr., orgs., Atlântico de dor: faces do tráfico de escravos. Rio de Janeiro:  
Fino Traço, 2016. pp. 511-530. Roquinaldo A. Ferreira, “Slave Flights and Runaway Communities in Angola (17th–19th  
centuries)”, Anos 90 21/40 (2014), pp. 65–90; Oliveira, “Mulheres escravizadas e resistência à escravidão em Luanda”.  
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Enquanto algumas das fugitivas se tinham afastado recentemente do controlo dos  
seus amos, outras já se encontravam em fuga durante anos. Uma das primeiras  
documentadas foi Deambor, [n.º 598], que fugiu do seu proprietário em Março de 1852,  
José Joaquim da Costa. Anna [n.º 731] fugiu do seu dono, Joaquim da Paiva Ferreira, em  
Maio de 1854. E Clara [n.º 711] escapou em Janeiro de 1855 ao domínio de Francisco  
Bernardo Lima. Estes três casos de fuga parecem ter ocorrido individualmente. Mas a  
maioria das fugitivas parece ter escapado aos seus donos em grupo. Um total de 28, ou  
quase três quartos de todas as mulheres em fuga, escapou ao cativeiro de Mariano José  
Faria, que obrigava a totalidade dos seus cativos a trabalhar na agricultura. Entre elas  
encontravam-se: Carolina [n.º 328], Leonor [n.º 329], Theodora [n.º 330], Joaquina [n.º  
331] e outra Joaquina [n.º 332], que fugiram em novembro de 1852; Joana [n.º 334],  
Vitória [n.º 335] e Perpétua [n.º 335], que se evadiram em Março de 1853; Leopoldina  
[n.º 347] e Luiza [n.º 348], que fugiram em junho de 1853; Amalia [n.º 349], Emilia [n.º  
350], Jezuina [n.º 351], Genoveva [n.º 352], Jozefa [n.º 353], Gabriela [n.º 354] e Teresa  
[n.º 355], que também fugiram em junho de 1853; Rosa [n.º 356], Rita [n.º 357], outra  
Rosa [n.º 358], Juliana [n.º 359], uma segunda Rita [n.º 360] e Paciência [n.º 361], que  
se evadiram em agosto de 1853; e Catherina [n.º 338], Adelaide [n.º 339] e Christina [n.º  
340], que fugiram em outubro de 1853. O momento destas fugas não prova  
conclusivamente que tenham ocorrido no contexto de uma acção colectiva. O que é claro  
é que, em pouco menos de um ano, José Faria perdeu 35% da sua força de trabalho  
escravizada com tantas fugas de mulheres cativas, o que indica condições de trabalho  
severas e/ou exploração sexual na(s) sua(s) propriedade(s) agrícola(s), assim como  
respostas solidárias baseadas no género e bem planificadas.33 Infelizmente, ao contrário  
das outras mulheres servis que trabalhavam em Moçâmedes, as escravizadas que fugiram  
dos seus donos não tiveram as suas ocupações anteriores registadas, nem as suas  
características físicas documentadas. É, assim, difícil analisar os motivos que as levaram  
a escapar ao jugo dos seus donos.  
Conclusão  
33  
Dois outros proprietários de escravizados sofreram fugas coletivas femininas, embora a uma escala muito menor.  
Um deles era nada menos que Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro. Em março de 1855, quatro de suas  
escravizadas escaparam do seu jugo: Catherina [n.º 763], Izabel [n.º 764], Thereza [n.º 765], e Quipalanca [n.º 765]:  
estas mulheres, 4 dos 5 escravizados de Abreu e Castor então em fuga, certamente não pensavam seu amo ser  
proponente da abolição da escravatura. O outro proprietário que vivenciou fugas coletivas de escravos foi Manuel  
António Teixeira Monteiro. Entre os 42 escravizados que possuía por fim de 1855, 15 se encontravam fugidos. Quase  
um terço destes servis, ou 4, eram mulheres: Quitulla [n.º 704] e Catherina [n.º 705] tinham fugido em junho de 1853;  
e Queteria [n.º 702] e Laurianna [n.º 703] escaparam em fevreiro de 1855.  
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Os dados encontrados no códice 2580, Mossamedes, Livro_N.º 1 de Registro de  
Escravos, fornecem-nos assim uma quantidade incomensurável de informação relativa a  
1855 sobre mulheres cujas vozes foram silenciadas pela violência da escravatura. Os seus  
corpos escravizados evidenciavam não apenas traumas médicos, mas também muito  
sofrimento nas mãos de outras pessoas.  
As costas da já citada ama de leite Victoria [n.º 849], por exemplo, estavam  
marcadas por cicatrizes. Ademais, os donos de cativos/as quase sempre tinham a sua  
propriedade humana marcada a ferro quente, como se fossem gado. Marianna [n. 188],  
com apenas 15 anos de idade, natural do Bailundo, “alta, (mas) magra (e com) olhos  
amortecidos”, tinha as iniciais JDA estampadas no seu “peito esquerdo”: era propriedade  
de João Duarte de Almeida, um outro suposto proponente da abolição da escravatura que,  
depois de se ter mudado de Benguela, transformou-se no maior dono de escravizados em  
Moçâmedes.34 E por último, mas não menos importante, Julia [n.640], com 24 anos de  
idade, natural do Nano, e dita “alta, grossa, rosto redondo, (e) olhos vivos”, tinha a marca  
IDA “nos peitos”: sua proprietária era a respeitável Dona Isabel de Austria, uma das  
poucas mulheres que integravam o primeiro grupo de luso-brasileiros que se instalou no  
sul de Angola.35 Qualquer solidariedade feminina que existia nessa sociedade não  
ultrapassava as barreiras da cor e/ou da classe.  
Em 1855, Moçâmedes apresentava uma proporção de apenas 3 mulheres para cada  
7 homens escravizados. Esta situação demográfica criou um déficit feminino que  
influenciou as relações sociais, o controlo senhorial e as dinâmicas de poder dentro desta  
sociedade escravocrata. Apesar da maioria das mulheres escravizadas estar em idade  
reprodutiva, a população servil simplesmente não se auto-reproduzia. A quase  
inexistência de famílias escravizadas estáveis e a predominância de lares monoparentais  
indicam que a reprodução biológica não era incentivada pelos senhores/as, reforçando  
assim a dependência da importação de cativos com origens em outras partes de Angola e  
além.  
As mulheres escravizadas, embora numericamente inferiores aos homens servis,  
desempenhavam papéis centrais na economia local, atuando na agricultura, colheita da  
urzela e serviços domésticos, quebrando padrões tradicionais de gênero e sustentando a  
base produtiva da vila.  
Sabemos pouco sobre o que poderia ter sido a resistência cotidiana das  
escravizadas neste contexto. Mas a resistência feminina não se limitou à sobrevivência  
34 Curto, “Uma Vila Esclavagista”.  
35  
Ver a lista destes colonos reproduzida em Manuel J. de M. Torres, Moçamedes, v.1, Lisboa: Agência Geral do  
Ultramar, 1974 [1950], pp. 479-481.  
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cotidiana: em 1855, 39 mulheres servis se encontravam em fuga, a maioria delas em ações  
coletivas, revelando assim estratégias solidárias e contestação ao sistema escravista,  
especialmente em propriedades com condições socioeconômicas severas.  
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Tabela 1. Ocupações em Moçâmedes, 1854-1860  
1854  
1857  
1859  
Escravos  
1860  
Escravos  
Livres  
Livres  
Alfaites  
4
2
4
6
4
6
Barbeiros  
Caboqueiros  
Calafates  
1
2
1
2
2
2
2
2
Canteiros  
1
8
1
2
1
3
14  
1
12  
2
17  
2
13  
3
21  
Carpinteiros  
Cavouqueiros  
Ferreiros & Serralheiros  
Forneiros  
Latoeiros, Caldeireiros,  
Funileiros  
4
1
4
2
1
4
1
1
1
1
Machinista & Fundidor  
Oleiros  
1
3
1
3
1
Padeiros  
Pedreiros  
Sapateiros  
Tanoeiros  
2
4
6
3
3
2
6
6
1
2
9
3
5
16  
4
8
1
25  
2
9
36  
6
9
Torneiros  
TOTAL  
44  
64  
44  
84  
(59.3%)  
(65.6%)  
Fontes: Annaes do Conselho Ultramarino, parte não oficial, Série I, Lisboa: Imprensa  
Nacional, 1855, p. 200; Boletim Oficial de Angola, n. 662, 5 de junho de 1858, p. 4;  
Boletim Oficial de Angola, n. 762, 26 de maio de 1860, pp. 8-9; Boletim Oficial de  
Angola, n. 817, 1 de junho de 1861, pp. 2-3.  
NB: É de notar que, tal como em Luanda, os escravizados que exerciam estes ofícios  
trabalham maioritariamente desde ou em oficinas: Manuel J. de M. Torres,  
Moçamedes, v.1, Lisboa: Agência Geral do Ultramar, 1974 [1950], pp. 383-387; Rosa  
M. dos S. A. de Sousa, “Moçamedes, 1840-1907: contribuição para o estudo da história  
Urbana de Angola”, v. 1, Dissertação de mestrado, Universidade de Lisboa, 2002, p.  
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Tabela 2. Moçâmedes, 1855 – Ocupações de Pessoas Escravizadas por Gênero  
Ocupação  
Agricultura  
Agricultura e Pastor  
Agricultura e Serviço Doméstico  
Alfaiate  
Escravizados  
Escravizadas  
Total  
196  
2
116  
1
0
80  
1
1
1
1
0
56  
1
1
4
2
1
2
3
0
4
1
0
0
0
13  
2
1
2
2
5
10  
1
1
204  
1
52  
5
6
5
7
0
1
1
1
100  
1
1
4
2
1
2
3
2
11  
1
1
7
1
13  
2
1
2
2
5
10  
1
1
204  
1
91  
19  
6
Ama de Leite  
Apanha de Urzela  
Caixeiro apprendiz  
Calafate  
Carpinteiro  
Carpinteiro da Ribeira  
Casceiro  
Caseiro  
Casteiro  
Costureira  
Cozinheiro/a  
Cozinheiro e Barqueiro  
Engomadeira  
Lavadeira  
Lavadeira e Engomadeira  
Marinheiro  
Marinheiro e Apanha de Urzela  
Mestre de assucar e purgador  
Oleiro  
44  
0
0
0
0
0
0
0
2
7
0
1
7
1
0
0
0
0
0
0
0
0
0
0
0
39  
14  
0
0
0
Padeiro  
Pastor  
Pedreiro  
Pedreiro apprendiz  
Pedreiro e Carpinteiro aprendiz  
Pescador  
Sangrador e Sangreiro  
Servente  
Serviço Doméstico / em casa  
Tanoeiro  
Tanoeiro apprendiz  
Trabalha com enxadas  
TOTAL  
5
7
708  
510  
198  
Fonte: Arquivo Histórico Nacional (Luanda), Códice 2580, Mossamedes, Livro_N.º  
1 de Registro de Escravos.  
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Recebido:05/04/2026  
Aceite:23/04/2026  
o manuscrito o autor está ciente de que os direitos de autor passam para a REVISTA  
CIENTÍFICA DO ISCED - Huíla e para o Instituto Superior de Ciências de Educação  
da Huíla, que mantém com fundos próprios a Revista.  
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