Revista Científica do ISCED-Huíla
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Referencial teórico
A actividade pastoril no sul de Angola
As características climáticas do sul de Angola obrigam as populações a deslocarem-se
sazonalmente em busca de melhores pastagens, processo intimamente ligado à prática
da transumância. Esta constitui uma estratégia de utilização racional dos recursos
essenciais, permitindo a redução dos impactos da seca e garantindo a continuidade das
comunidades pastoris (Oliveira, 2018; Solazzo et al., 2024). Do ponto de vista
histórico, os Khoisan foram os primeiros habitantes do actual território angolano,
antes da chegada dos portugueses. Posteriormente, as migrações Bantu, provenientes
do norte de África em consequência da desertificação do Saara, introduziram novas
formas de agropastorícia, que foram sendo adaptadas em contacto com populações de
regiões como Quénia, Uganda e Tanzânia (Pacheco, Costa & Tavares, 2018; Ogundiran,
de Almeida & Klussmann, 2024). A expansão destes grupos para a Namíbia, Botswana,
Angola e África do Sul resultou na marginalização de parte das comunidades San,
deslocadas dos seus territórios originais (Matos, 2005; Tulilapi, 2022).
Actualmente, as províncias da Huíla, Namibe e Cunene são habitadas por diversos
grupos etnolinguísticos, como Khoisan,
Hereros, Nyanekas, Ovangambwes,
Ovandimbas, Muhakahonas e Mucubais. Todos possuem forte ligação à pastorícia,
prática que os obriga a deslocações sazonais com o gado devido às variações climáticas,
à escassez de água e à irregularidade das chuvas (Tulilapi, 2022). O gado foi
introduzido gradualmente no sul de Angola por sucessivas migrações de povos
pastores, com origens semelhantes aos bois de cornos longos que atravessaram o rio
Zambeze, fixando-se em territórios vizinhos como Zâmbia, Zimbábue e Botswana
(Matos, 2005; Jorge, 2013; Oliveira, 2018). Os povos Nyaneka, Hereros e Kuvales,
conhecidos como exímios criadores de gado, foram duramente afectados pelas políticas
coloniais de ocupação de terras a partir da década de 1950, que expropriaram
territórios indígenas, causando tensões sociais (Castelo, 2022). Com o fim do conflito
armado em 2002, a nova Lei de Terras impulsionou a expansão da pecuária comercial,
muitas vezes em detrimento das áreas comunitárias utilizadas para a transumância.
Essa realidade tem limitado cada vez mais o acesso das populações autóctones a
territórios de pastagem, comprometendo a continuidade do seu modo de vida pastoril
(Pain, 2007).
Transumância como prática socioecológica
A domesticação dos animais marcou o início da pastorícia organizada, baseada na
criação e reprodução do gado em pastos ao ar livre. Esse sistema, além de fornecer
alimentos e derivados, constituiu uma forma de gestão eficiente dos recursos
disponíveis, transformando-se numa verdadeira cultura (Oliveira & Silva, 1999; Acha,
2021; FAO, 2016). A pastorícia, definida como produção pecuária extensiva, é
praticada em todo o mundo e adaptada a diferentes contextos ecológicos. Estima-se
que cerca de 500 milhões de pastores vivam dessa actividade, desde países pobres até
os mais industrializados (FAO, 2016). Em África, a transumância é uma prática
ancestral em países como Mali, Nigéria, Níger, Quénia, Ruanda, Namíbia, África do Sul
Revista Científica do ISCED - Huíla, Lubango |v. 3, n.1 |pp 145-166| Janeiro-Junho|2022
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